Psicodélicos: imagens mostram cérebro reconfigurado – 08/04/2026 – Virada Psicodélica

Imagens do cérebro sob efeito de psicodélicos realizadas por ressonância magnética funcional (fRMI, em inglês) ajudam desde 2012 a montar o quebra-cabeças dessa radical alteração da consciência. Mais algumas peças se veem encaixadas agora por um esforço internacional que incluiu o Brasil e indicou que tais substâncias promovem uma reorganização menos hierarquizada do pensamento, possível fonte de seu potencial terapêutico.

O artigo está na edição de segunda-feira (6) da Nature Medicine. Entre os 27 autores figuram Fernanda Palhano-Fontes e Dráulio Araújo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN), e uma penca de celebridades da ciência psicodélica, como David Nutt, Robin Carhart-Harris e Franz Vollenweider.

O feito do grupo não envolveu produzir imagens novas, mas obter consenso sobre padrões homogêneos para analisar 11 coleções já existentes de dados obtidos em três continentes com 273 voluntários que entraram no tubo de fRMI. A primeira reunião aconteceu em novembro de 2021, o artigo foi submetido à revista quase quatro anos depois, em março de 2025, e publicado agora, após 12 meses em revisão.

Os compostos pesquisados foram cinco: LSD, psilocibina de cogumelos mágicos, mescalina do cacto peiote, dimetiltriptamina (DMT) e ayahuasca (que contém DMT). A contribuição brasileira se deu com imagens obtidas após ingestão dessa bebida amazônica.

“O principal avanço é trazer consistência para um campo muito fragmentado. Os estudos eram pequenos e tinham resultados diferentes entre si”, diz Palhano-Fontes, engenheira do ICe-UFRN especialista em imagens.

Ela assinala que até aqui se falava muito em entropia, em desorganização do cérebro com a comunicação ampliada entre áreas de cognição e percepção, mas que os resultados apontam alguma ordem na experiência com essas drogas: “Os psicodélicos promovem uma reconfiguração da atividade cerebral tornando-a mais integrada e menos rígida”.

Chamem de crise do imperialismo da razão, se preferirem. Não é fácil encontrar metáforas adequadas para encapsular a complexidade da vida mental, mas essa servirá para ilustrar a noção de que psicodélicos não só aumentam a comunicação entre áreas do cérebro, mas o fazem subvertendo a cisão entre níveis superiores e inferiores, vale dizer, “achatando” a hierarquia cerebral, como escreveram os autores.

A escolha do vocabulário, níveis inferiores (grosso modo, áreas de processamento sensório-motor) e superiores (cognição, integração), já trai uma visão da atividade psíquica que privilegia o controle de cima para baixo. Esse modo de pensamento propiciou avanços científicos e tecnológicos da humanidade, sim, mas a rigidez implícita cobra seu preço em saúde mental, descrédito para outras formas de conhecimento (como saberes tradicionais) e até impactos sobre a natureza reduzida a objeto para consumo humano.

Normalmente –ou talvez seja o caso de dizer: no modo adulto, cartesiano e analítico de pensamento–, ocorre uma segregação entre os níveis de processamento. As áreas ditas superiores integram informações das inferiores, constroem modelos e predições sobre o meio e alimentam tomadas de decisão.

Com o aumento da comunicação entre os dois níveis, a experiência subjetiva dá a sensação de que se borra a distinção entre pensar e sentir, e os lampejos da viagem se tornam difíceis de pôr em palavras –a chamada inefabilidade da vivência psicodélica. “O pensamento abstrato deixa de operar de forma isolada e dominante e passa a interagir de maneira mais direta com sistemas sensoriais e emocionais, no mesmo nível”, descreve Palhano-Fontes.

Outro resultado do estudo vai na contramão da ideia de que as redes cerebrais sofrem “desintegração” generalizada: “Contrariamente a alguns achados anteriores, nossa abordagem mega-analítica não encontrou evidências consistentes de desintegração intrarrede no estado psicodélico”, afirma o artigo.

Já se descreveu a viagem psicodélica como voltar a ver o mundo como criança. Mas os psiconautas sabem que, mesmo na proverbial dissolução do ego, um olho adulto segue entreaberto o tempo todo, admirando o alargamento do horizonte mental.


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Autoria: FLSP

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