A cetamina oferece oportunidade única para debater incongruências que dificultam pesquisas e adoção de psicoterapias assistidas por psicodélicos (PAP), alternativa promissora na crise de saúde mental. A inovação encontra apoio crescente em ensaios clínicos sem conseguir superar o pânico moral que se alimenta da distinção artificial entre fármacos e drogas.
Como anestésico bem conhecido dos médicos, a cetamina se encaixa na primeira categoria. Como composto dissociativo, ela pode ser incluída num conceito amplo de substâncias psicodélicas, com manifestações subjetivas que a biomedicina convencional tende a encarar como efeitos adversos indesejáveis.
Escrita por médicos para médicos, a coletânea “Terapia Psicodélica com Cetamina” (Manole Editora, 148 págs.) ajuda a romper preconceitos ainda vivos entre profissionais de saúde. Organizado por um geriatra (Alessandro Gonçalves Campolina), uma anestesista (Angela Maria Sousa) e um psiquiatra (Rodrigo Fonseca Martins Leite), o livro abrirá os olhos de quem busca soluções para demandas hoje mal atendidas, como as de pacientes terminais com câncer.
Campolina e Fábio Scaramboni Cintinelli citam no segundo capítulo que 5% a 10% dos adultos com tumores experimentam episódio depressivo maior, o dobro ou o triplo da taxa entre pessoas sem câncer. Na população adulta em geral, 5,7 % têm sintomas de depressão, 350 milhões de pessoas no mundo, das quais ao menos um terço manifesta resistência a tratamento (dois antidepressivos tentados, sem melhora).
Nos próximos anos a PAP com MDMA (ecstasy), psilocibina de cogumelos ou dimetiltriptamina da ayahuasca e jurema-preta acabará licenciada como tratamento. Testes clínicos demonstram segurança e eficácia terapêutica para transtornos como estresse pós-traumático, depressão resistente e ansiedade.
Vai demorar para a inovação chegar ao Brasil e se disseminar. Mesmo onde já se empregam psicodélicos como MDMA ou psilocibina sob prescrição médica especial –Alemanha, Austrália, Canadá, Nova Zelândia, República Tcheca e Suíça–, burocracia e alto custo restringem consideravelmente o acesso.
Mais de 770 mil deprimidos cometem suicídio a cada ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, e seria desejável acelerar a implementação de alternativas. O uso “off-label” da cetamina aparece como ponte acessível para a PAP, sendo um fármaco regulamentado, mas ela também encontra barreiras de aplicação.
Alguns psiquiatras já a empregam, sobretudo com pacientes com ideações suicidas, por causa do efeito imediato. No caso de antidepressivos convencionais, o benefício pode demorar várias semanas.
No entanto, parece prevalecer a aplicação de cetamina desacompanhada das sessões de preparação e integração da PAP, assim como do cuidado com ambientes voltados a enriquecer a viagem psicodélica (iluminação, música, máscaras). A ênfase recai sobre a molécula, não sobre a experiência e o conteúdo psíquico.
As limitações desse modelo biomédico fundado na regulamentação farmacológica e na propriedade intelectual sobressaem na variante escetamina para inalação nasal. Um parecer do Conselho Federal de Medicina de 2024 ressaltou que o tratamento completo com o medicamento Spravato, da Janssen, tem custo estimado em dezenas de milhares de reais, contra R$ 176 a R$ 705 quando usada a formulação injetável.
O Spravato não está disponível no rol de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo o uso psiquiátrico do anestésico cetamina injetável ocorre só em locais específicos, como poucos hospitais universitários que oferecem o tratamento no SUS.
O atendimento de saúde mental no Brasil, pelo SUS, ocorre preferencialmente nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que se pautam por acolhimento, apoio à autonomia e à integração social dos pacientes. Um legado da reforma psiquiátrica que vai muito além do modelo farmacológico.
Tudo a ver com a proposta da PAP. A cetamina de baixo custo pode ser uma ponta de lança para começar a levar essa inovação para quem dela precisa.
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