Projeto na zona sul de SP ensina saúde para adolescentes – 09/12/2025 – Equilíbrio e Saúde

Quando come ultraprocessados, Arthur Xavier, 15, se sente culpado. Afirma, porém, que não resiste a esses alimentos, como bolachas e salgadinhos, tentadores a crianças e adolescentes.

Arthur sabe que precisa se alimentar bem, o que classifica como “comer alimentos naturais”. Sabe, também, o que é uma IST (infecção sexualmente transmissível), sexualidade saudável, redução de danos e alcoolismo. Temas que seus amigos consideram chatos, mas que fazem parte da sua vida e de outros 40 adolescentes do Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

O jovem faz parte de um grupo que inclui meninos e meninas de 9 a 19 anos. Eles se reúnem semanalmente para falar de saúde na linguagem adolescente. Batizado de “Chega Junto”, o projeto foi desenvolvido por equipes do Einsten Hospital Israelita em bairros da zona sul. Em Paraisópolis, a iniciativa elevou em 36% o acesso dos jovens às UBS (Unidades Básicas de Saúde), e em 10% a taxa de vacinação contra o HPV, um ano após ser implementada.

São crianças e adolescentes de baixa renda e pouco contato com saúde, que para Arthur, por exemplo, significa “ser saudável”. Para Henrique Augusto Cuenga, 13, outro membro do projeto, saúde é “não estar doente”.

O projeto mira territórios vulneráveis para conscientizar sobre temas recorrentes nessas áreas. É justamente em regiões mais pobres, como Paraisópolis e Campo Limpo, que incidem os maiores índices de gravidez na adolescência, segundo pesquisa realizada na Universidade Federal de Pelotas —embora o número de nascimentos de filhos de adolescentes apresente queda no Brasil desde os anos 2000.

Segundo profissionais do Einsnten, que administra a UBS em Paraisópolis, o bairro concentra um grande número de gestantes com sífilis, resultado de uma vida sexual precoce e desprotegida. Nas oficinas, os jovens aprendem a driblar problemas de saúde como esse.

A ideia de começar com o projeto partiu do diagnóstico de que era pequena a presença dos adolescentes nas unidades de atenção primária —que focam na saúde preventiva e de doenças leves. O baixo acesso é resultado de uma série de fragilidades, explica Andréa Christina Borella, coordenadora de prática assistencial da Rede Einsten.

“A gente entendeu que havia pouco acesso a saúde para os jovens, seja porque eles não têm orientação em casa, ou porque os pais trabalham o dia todo e não podem acompanhá-los, mas principalmente por que a linguagem dos profissionais de saúde não estava alinhada a deles”, diz Andréa.

Equipes de três UBS foram treinadas para introduzir os adolescentes no assunto saúde utilizando a gamificação, uma estratégia que utiliza os jogos para ensinar sobre diversos assuntos.

Os jovens ficaram responsáveis pela criação de jogos de tabuleiro. Os temas foram escolhidos pelos profissionais de saúde, mas toda a roupagem, incluindo nome dos personagens e locais onde se desenrolam as tramas, foi dada pelos próprios adolescentes.

Um dos jogos é o “Caverna do Dogão”, em que um cachorro quente figura como vilão. No jogo, o Dogão, que contém diversos ultraprocessados, a Loira Gelada (cerveja) e o Vape tentam atrasar o avanço dos jogadores pelo tabuleiro. Para fugir, eles recorrem a uma série de ferramentas, como escudos e espadas.

Outro jogo é “Dejavú”, sobre redução de danos. Nele, os adolescentes utilizam de recursos como camisinha, PrEP e seringa descartável para amenizar situações de risco à saúde. Eles precisam enfrentar, da melhor forma, os problemas, que incluem IST’s e uso de drogas, por exemplo. Ao término do ciclo, que dura dez minutos, os vencedores são os menos danificados, ou seja, aqueles que conseguiram se sair melhor ao lidar com essas situações.

“Eles [os adolescentes] estão falando sobre o assunto sem falar do assunto. Ao fazerem isso, aprendem inconscientemente sobre o que devem ou não fazer na vida prática. É diferente do jogo educativo, que geralmente é quadrado e sem graça para eles”, explica André Domicciano, designer de jogos que auxilia na criação dos tabuleiros.

Segundo Andréa, o projeto também elevou em cerca de 5% os atendimentos odontológicos em Paraisópolis. Ainda não há dados relativos à segunda fase do “Chega Junto”, no Campo Limpo, mas ela afirma que, nas 14 UBS da região, houve um aumento nos atendimentos de enfermagem.

“Esse contato dos jovens com os profissionais de saúde construiu uma relação de intimidade, algo fundamental na comunicação com adolescente”, afirma Danielle Palacio, gerente de rede de Atenção à Saúde da instituição. Aliado a isso, ela afirma, “os participantes do projeto aprenderam que podem ir à UBS sem os pais para procedimentos básicos, o que contribuiu para a elevação dos números.”

O resultado positivo rendeu um apoio da entidade Amigo H para apresentação do “Chega Junto” na 18ª Conferência Europeia de Saúde Pública, na Finlândia. A exposição angariou a atenção de instituições de Portugal, Romênia, França e Reino Unido, por exemplo.

“O Brasil é referência em estratégias de saúde pública, por ser um país de proporções continentais com sistema unificado de saúde que funciona. Todas essas estratégias são assistidas com muito interesse por países de fora”, explica Francisco Timbó, consultor de projetos do Einsten. Além da exposição, o projeto rendeu uma publicação European Journal of Public Health, da Universidade de Oxford.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autoria: FLSP

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