O que é viver com dislexia – 21/03/2026 – Equilíbrio

Para Erica Stock Williams, a dislexia é uma história de família. Ela tem o transtorno, assim como seu pai e sua filha de 16 anos.

“Passei boa parte da minha vida me sentindo burra”, conta Stock Williams, 45, moradora de Scotts Mills, no Oregon. “As pessoas não entendiam o que de fato acontece no cérebro —e que isso não tem nada a ver com inteligência.”

Segundo ela, o transtorno, que pode dificultar a leitura e a escrita em ritmo mais acelerado, prejudicou a trajetória escolar da filha adolescente e abalou sua autoestima. Com apoio especializado, porém, a menina passou a ler no mesmo ritmo que os colegas e hoje tira notas altas em matérias do nível avançado. Ainda assim, lembra a mãe, a filha “ficou por muito tempo achando que havia algo de errado com ela”.

A dislexia —um transtorno de aprendizagem que afeta as redes cerebrais responsáveis pelo processamento da linguagem e da leitura— segue amplamente incompreendida. Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a atacar o governador da Califórnia, Gavin Newsom, por ter dislexia. As declarações reacenderam estereótipos negativos e escancararam o estigma que ainda cerca o transtorno.

Na segunda-feira, Trump afirmou que Newsom —apontado como provável candidato democrata à Presidência— não estaria apto para o cargo por ser disléxico, chamando-o de “pessoa de QI baixo”. “Honestamente, sou a favor das pessoas com deficiências de aprendizagem, mas não como presidente”, disse Trump, que tem histórico de zombar de pessoas com algum tipo de limitação. “Tudo nele é burro.”

Embora a dislexia seja frequentemente retratada como letras que saltam ou se invertem na página, muitos disléxicos descrevem a experiência de outra forma: ler exige mais tempo e esforço, como se cada frase precisasse ser decodificada manualmente, em vez de compreendida de forma fluida. O transtorno afeta até 20% da população dos Estados Unidos e costuma ser diagnosticado na infância.

O tratamento precoce pode ajudar a reorganizar os padrões cerebrais e melhorar as habilidades de leitura, explica o médico Jeffrey Brosco, pediatra do desenvolvimento da Faculdade de Medicina da Universidade de Miami —embora a dislexia seja uma condição permanente.

Pesquisas mostram que ela não está associada a menor inteligência; pelo contrário, muitos disléxicos se destacam pela criatividade e pelo pensamento ágil, segundo Thomas Preston, diretor de neuropsicologia do Stony Brook Medicine.

Ben Powers, presidente da Fundação para Dislexia, afirmou em nota que “a ideia de que ela reflete baixo QI ou limita a capacidade de liderança de alguém simplesmente não tem respaldo científico. Milhões de pessoas com dislexia alcançam os mais altos patamares em todas as áreas.”

Ainda assim, conviver com a dislexia pode ser angustiante e solitário —especialmente quando a criança luta sem entender o motivo. “Eu não conseguia ler, não conseguia soletrar, não conseguia escrever”, escreveu Newsom em suas memórias recentes sobre os anos de infância com dislexia severa. “Saía correndo da sala gritando que não sabia o que havia de errado com o meu cérebro.”

Para crianças pequenas, o transtorno pode ser particularmente desmoralizante. Tessa Balderrama conta que a dislexia vinha acompanhada de uma sensação persistente de inadequação, “como se eu devesse ser mais inteligente do que sou”. Na escola, quando era chamada a ler em voz alta na frente da turma, tinha dificuldade de processar as palavras e pronunciá-las corretamente. Era “o pior pesadelo possível”, diz ela.

Algumas crianças reagem ao sofrimento com comportamentos disruptivos, enquanto outras o internalizam, desenvolvendo tristeza, ansiedade ou depressão, aponta Brosco. O isolamento e a falta de compreensão “podem alimentar um ciclo de marginalização social, educacional e, no futuro, profissional”, acrescenta Preston. Com os recursos certos —tecnologias assistivas para leitura, tempo extra em provas, acompanhamento especializado—, pessoas com dislexia podem prosperar na escola e na vida.

Abby Van Metre, 27, especialista em neurociência de Miami, foi diagnosticada na primeira série, após dificuldades com leitura e matemática básica. Sua mãe, que reconheceu seu potencial desde cedo, buscou apoio e adaptações para ela, como terapia de visão e tempo estendido nas avaliações. Com o tempo, Van Metre aprendeu a associar sons, memórias e cores às palavras escritas para processá-las melhor — e passou a enxergar a dislexia como motivo de orgulho e como algo que a ajuda a pensar de forma não linear.

Hoje, Balderrama, 25, trabalha com marketing em Austin, no Texas, e credita a dislexia pelo seu desempenho criativo, incluindo design gráfico. “Você precisa ter paciência consigo mesma, sabendo que vai levar um pouco mais de tempo do que os outros para ler ou entender algo”, diz. Mas acredita que isso também a tornou mais empática.

Stock Williams nunca teve acesso ao tipo de suporte que a filha recebe hoje —tutoria particular ou um plano de ensino individualizado na escola. Seu pai tampouco: só foi diagnosticado com dislexia aos 50 anos. Mal conseguiu concluir o ensino médio, mas acabou se tornando um empresário bem-sucedido.

Ver como a realidade da neta é diferente da sua, conta ela, “o faz chorar”.

Autoria: FLSP

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