O debate sobre a polilaminina e as fronteiras da ciência – 28/02/2026 – Reinaldo José Lopes

Para o bem e/ou para o mal, falar das pesquisas clínicas brasileiras com a polilaminina, molécula que talvez represente uma esperança para enfrentar lesões sérias na medula espinhal, virou quase obrigação cívica de quem escreve sobre ciência, dado o auê sobre o tema país afora.

Muitos colegas já abordaram com competência as incertezas sobre os resultados até agora, bem como a necessidade de moderar as expectativas diante de um trajeto regulatório que tem mesmo de ser exigente –na maioria dos casos, substâncias promissoras ficam pelo caminho por não se mostrar suficientemente seguras e eficazes. Creio que posso contribuir um pouco, de qualquer modo, ao analisar as implicações do que foi dito pela pesquisadora responsável, Tatiana Sampaio, da UFRJ, durante sua participação no programa Roda Viva.

Antes de mais nada, porém, destaco que as perguntas feitas pela bancada de jornalistas durante o programa nada tiveram de desrespeitosas ou invasivas, ao contrário do veredicto dado por parte do tribunal das redes sociais. É compreensível que não falte torcida para os pesquisadores; mas, no presente caso, torcida mais atrapalha do que ajuda a bola a entrar no gol. E o ceticismo baseado em dados ainda é uma das melhores ferramentas do jornalismo. Dito isso, sigamos.

A pesquisadora da UFRJ reagiu da seguinte maneira ao ritmo atabalhoado com que seus resultados têm sido divulgados e absorvidos pela população: “A velocidade da ciência, os ritos da ciência, eles são muito bem estabelecidos. Existem limites, e essa divulgação está extrapolando esses limites. Isso para mim é muito claro. Agora, se isso é bom ou se é ruim, eu acho que é discutível. Existe algo que pode ser questionado e estou disposta a conversar sobre isso”.

Quando o colega Jairo Marques, desta Folha, perguntou sobre o uso da estrutura tridimensional da molécula, que lembra a forma de uma cruz, num contexto religioso, com certo ar de messianismo, ela respondeu assim: “Eu consigo perceber muito claramente a fronteira entre a ciência e aquilo que não é ciência. O que eu acho que pode ser conversado é se esses limites da ciência são os mesmos limites dos seres humanos, porque eu, pessoalmente, acho que não. Consigo botar o chapéu de cientista e o chapéu de não cientista, e não acho que a ciência seja a coisa mais importante que um ser humano é capaz de fazer. A gente faz coisas mais bacanas do que isso”.

Não vejo nenhuma barbaridade nessas frases, mas acho que o raciocínio por trás delas deveria ser objeto de uma reflexão mais aprofundada. Querendo ou não, Sampaio foi parar numa posição em que justamente a lógica e as fronteiras da ciência –o que é honesto ou não afirmar com base nela– precisam ser discutidas, com compaixão, mas também com a mais absoluta clareza, diante de toda a população.

Quando ela diz que não vê a ciência como o valor humano supremo, sou capaz de assinar embaixo com tranquilidade. Mas ela ainda é de longe o melhor mecanismo para elucidar como o mundo funciona.

Seria uma enorme contribuição se a pesquisadora se dispusesse a liderar o debate, sem desmerecer a fé das pessoas (com cruz e tudo), mas também ajudando-as a entender que a fé não pode ser vista como mágica. No longo prazo, seria um legado tão importante quanto o de um possível novo tratamento.


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Autoria: FLSP

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