Meu filho ia ‘morrer por câncer’, então vim para o Brasil – 24/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Há três anos, Horácio Alpires, 43, recebeu um prognóstico devastador para o futuro do filho Lucas, 14. “A médica disse ‘vá para casa, não há mais nada a fazer: ele vai morrer em um mês'”, lembra.

O garoto tinha 11 anos na época e tratava um linfoma de Hodgkin —que atinge os linfonodos— em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, onde vivia com o pai e a irmã mais velha. A doença fora diagnosticada três anos antes, afirma o pai.

Abalado, Horácio fez uma vaquinha e comprou passagens aéreas para o Brasil, onde, diz, buscaria uma previsão melhor para o filho. Ele embarcou trazendo na mala apenas roupas e esperança.

Ao desembarcar no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, lembra que se sentiu desorientado. “Não conseguia entender o idioma, não sabia para onde ir, o que procurar”, diz o pai, em um espanhol aportuguesado. “Eu tinha anotado em um papel o endereço do [Hospital] Santa Marcelina, porque havia pesquisado referências para levar o meu filho”, recorda.

Lucas e Horácio replicam a história de muitas famílias em tratamento oncológico no hospital da zona leste de São Paulo, que atua junto com a ONG Tucca. A unidade acolhe crianças e famílias em tratamento oncológico pelo SUS (Sistema Único de Saúde), maior parte da periferia da capital paulista. Cerca de 400 crianças e adolescentes são tratados no local por ano.

Esse trabalho levou a unidade a ser escolhida para uma parceria com o MSK (Memorial Sloan Kettering Cancer Center), de Nova York, um dos principais centros de tratamento e pesquisa do câncer no mundo. A cooperação será assinada nesta terça-feira (24).

Com isso, o hospital da zona leste é o primeiro da América Latina a integrar o programa global de câncer pediátrico da instituição americana, que já foi classificada como a número um em oncologia no mundo pelo ranking World’s Best Specialized Hospitals, da revista Newsweek.

A colaboração permitirá o acesso a análises moleculares e exames complexos com a estrutura do centro americano.Isso deve auxiliar nos diagnósticos dos casos tratados na unidade, que passam a contar com estrutura de ponta.

O trabalho conjunto eleva o nível de excelência do serviço, afirma o presidente da Tucca e diretor do serviço de oncologia pediátrica do Santa Marcelina Saúde, Sidnei Epelman.

“Nos dá uma chancela técnica importante, pois se trata de um dos mais importantes hospitais ao nível mundial. E conseguimos esse reconhecimento na esfera pública, atendendo pelo SUS”, afirma, destacando que apenas cinco unidades no mundo foram escolhidas.

Casos como o de Lucas, que migrou com o pai para fazer tratamento, contribuem com o reconhecimento. O Santa Marcelina será uma espécie de hub do MSK na América Latina. Além de ganhar amparo de estrutura com equipamentos caros e pouco acessíveis no continente, a unidade paulistana pode contribuir com material para estudos oncológicos nos Estados Unidos.

Epelman afirma que o contato entre os dois hospitais se deu por indicação de médicos que conheciam o trabalho realizado em São Paulo. Enviados dos EUA desembarcaram na cidade, no ano passado, para uma visita técnica à unidade.

Para Epelman, o fato de a unidade integrar o SUS contribui para o reconhecimento. “Eles também querem saber como nós conseguimos fazer nosso trabalho aqui no Brasil, com os recursos que temos, atendendo majoritariamente um perfil de baixa renda, sem abrir mão da excelência”, diz.

Um dos primeiros casos avaliados pela parceria é do pequeno Raul Ribeiro, 4. No ano passado, ele, a mãe e pai receberam o diagnóstico de tumor desmoplásico de pequenas células redondas, um câncer raro e muito agressivo, que o acometeu no intestino.

Semanas depois do diagnóstico, a família teve que deixar a cidade onde vivia, no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, e se mudar para a capital. “A médica da nossa região disse que lá não tinha recursos para tratar o câncer dele”, afirma a mãe, a servidora pública Jessica Ribeiro, 31.

Jessica, Raul e o pai, Kleber, não conheciam São Paulo. O primeiro contato com a cidade e com o bairro de Itaquera, onde vivem hoje, se deu pelo tratamento do filho. Ele foi transferido para o Santa Marcelina horas após o diagnóstico.

O caso de Raul foi enviado para o MSK, que faz análises laboratoriais do câncer e ajuda a unidade paulistana no protocolo aplicado a seu tratamento. A colaboração nutre na mãe a esperança de que o filho conseguirá vencer o câncer.

“O médico nos disse para aproveitarmos muito nosso filho, e ficamos sem chão à época”, lembra Jessica. Em ano de tratamento, no entanto, Raul teve alguma evolução.

O tumor, contudo, teve metástase para a pelve e para o fígado, envolvendo uma artéria, o que elevaria o risco para uma cirurgia de retirada do tumor.

Com o protocolo aplicado pelo Tucca Santa Marcelina e chancelado pelo MSK, houve uma pequena remissão que permitiu o procedimento cirúrgico. Raul agora será submetido a uma rodada de radioterapia, e a família espera que o tratamento ajude a reduzir o tumor, que já teve uma parte removida.

“A equipe sempre foi bem preparada, nunca tivemos dúvida disso, mas é uma segurança enorme saber que meu filho está sendo acompanhado pelos melhores médicos do mundo. Seria bom que todas as famílias tivessem um tratamento desse, mas é uma realidade ainda restrita”, diz Jessica.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autoria: FLSP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima