Fazer uma refeição pensando em qual será a próxima ou pensar sobre comidas o tempo todo pode indicar um comportamento chamado “food noise”, ou ruído alimentar, em tradução livre.
A nutricionista Sophie Deram, coordenadora do programa de genética dos transtornos alimentares da obesidade na neurociência, no Ambulim, explica que os pensamentos intrusivos e compulsórios sobre comida podem estar associados à restrição alimentar –seja voluntária, por meio de dietas, ou por vulnerabilidade social e acesso escasso à alimentação.
“Para o cérebro, não faz diferença. Ele diz: ‘Ué, você está me dando só isso [de alimento]? Preciso de mais!’. E, em uma sociedade obcecada com emagrecimento, o ruído alimentar aumenta.”, diz Sophie.
De acordo com a especialista, todos podem experimentar o ruído quando em dietas “disfarçadas de saudáveis”. “A pessoa não está passando fome, mas vontade”.
Além disso, o pensamento excessivo geralmente está ligado a alimentos altamente palatáveis, associado à busca pelo prazer, não pela necessidade, diz a psicóloga Ana Lucia Ivatiuk, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) e especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva (TCC). Ela aponta ainda que o conceito não é um diagnóstico, mas um indicador, e pode ser identificado por meio da investigação da história alimentar do paciente junto de outras questões, como ansiedade e problemas de sono. Ele também pode aparecer em pessoas com obesidade crônica ou com transtorno alimentar compulsivo, mas não é um fator condicional.
Embora o ruído alimentar já tivesse registro em literatura científica e na experiência de consultório, Sophie Deram aponta que ganhou notoriedade em novembro de 2025, quando um estudo publicado na revista Nature verificou a diminuição do ruído alimentar em uma paciente em tratamento com Mounjaro. Resultados semelhantes foram encontrados em estudo encomendado pela Nordisk, farmacêutica que produz Wegovy e Ozempic.
Sophie, entretanto, não vê a notícia como algo necessariamente positivo por considerar que se trata apenas de uma enganação do cérebro. Drogas agonistas de GLP-1 (como Ozempic, Saxenda, Wegovy e Mounjauro) simulam um hormônio intestinal para causar sensação de saciedade e controle de glicemia. “Esse ruído tem o papel de fazer você procurar comida porque o corpo não está satisfeito”, diz.
O efeito também não é duradouro. Uma vez que o medicamento deixe de ser utilizado, o ruído alimentar volta. “Uma das maiores questões no meu consultório é quando um paciente que usa esses medicamentos se torna incapaz de escutar a fome e a saciedade. Isso causa uma desconexão com o corpo. E a pessoa se sente obrigada a continuar usando a medicação“.
Sophie diz que é possível diminuir o ruído alimentar e construir uma relação mais saudável entre corpo e alimentação por meio de técnicas de terapia nutricional, em que ensina seus pacientes a se reconectar com os sinais de fome e saciedade emitidos pelo corpo.
Ivatiuk recomenda a terapia comportamental e cognitiva para lidar com o ruído alimentar. A abordagem busca auxiliar a pessoa a mudar sua relação com o pensamento e modificar seu comportamento diante dele.
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