A médica Vivien Sil Mabouang, chefe dos serviços de saúde em um distrito de Camarões, dirige pelas estradas de chão das aldeias com uma nova preocupação sobre a ameaça à saúde dos rios e riachos que cortam a região.
Moscas-negras se reproduzem nas águas de correnteza rápida e, quando picam as pessoas, podem transmitir larvas de vermes que amadurecem sob a pele. Os vermes adultos podem viver por 15 anos, produzindo milhões de vermes imaturos que se movem pelo tecido humano. Se os vermes imaturos morrem na pele, causam coceira intensa, e se morrem no olho, podem causar cegueira —por isso a infecção, formalmente chamada de oncocercose, é mais conhecida como cegueira dos rios.
A oncocercose é dolorosa e debilitante, mas com financiamento dos Estados Unidos, Mabouang e seus colegas estavam perto de alcançar o objetivo de erradicá-la em sua região e ter o distrito oficialmente declarado livre da doença. Mas o governo Trump reduziu a ajuda externa, e o financiamento para o programa de eliminação da oncocercose foi cortado.
A oncocercose é uma das 21 enfermidades que a OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica como doenças tropicais negligenciadas. Juntas, elas afetam mais de 1 bilhão de pessoas, mas como muitas delas estão entre a população mais pobre nos lugares menos desenvolvidos, essas doenças historicamente receberam pouco financiamento, pesquisa ou atenção.
Raramente fatais, essas doenças envolvem grande sofrimento humano, incluindo dor, desfiguração e deficiências como a cegueira. Às vezes são chamadas de “bíblicas” porque afligem os humanos há tanto tempo que são mencionadas em textos antigos.
Os Estados Unidos foram um dos principais financiadores de um esforço de 20 anos para finalmente erradicá-las. Esse dinheiro desapareceu há um ano, quando o governo Trump desmantelou grande parte da assistência externa dos EUA.
No centro de Camarões, desde 1994, agentes comunitários de saúde iam de porta em porta para tratar cada pessoa com uma dose de ivermectina —o suficiente para matar todos os vermes e todas as larvas. A distribuição do medicamento dependia de cerca de US$ 115 milhões por ano dos EUA, que o governo Trump encerrou. Não houve ivermectina em 2025.
“Tivemos tantas reclamações, pessoas dizendo: ‘Não estamos recebendo, vocês não vieram'”, afirma Mabouang. “Explicamos a eles que houve um corte no nível nacional, houve muitos problemas.”
Diferentemente de muitos outros problemas de saúde que afligem as pessoas neste país da África Central, a oncocercose não é complicada de eliminar. Mas requer um engajamento até o fim: se a distribuição de medicamentos parar antes que o parasita seja realmente eliminado, ele pode retornar com força total em um único ano.
“Teremos que recomeçar do zero se conseguirmos novos recursos. Enquanto isso, as pessoas perderão a visão”, disse Mabouang.
Na cidade de Essong, François Ewolo sabe que é vulnerável à infecção por oncocercose. Ele ganha a vida na agricultura, trabalhando na construção civil e ocasionalmente dirigindo caminhões nos quais dorme durante longas viagens. “Sou sempre picado”, disse ele.
Ele também conhece os efeitos devastadores da doença: custou a visão de sua mãe, que passou os últimos 16 anos de sua vida dependendo de seus netos para guiá-la pela mão. “Não havia nada para ajudá-la. Não queremos voltar àquele tempo.”
A lista de doenças tropicais negligenciadas (DTN) inclui doença do sono, lepra e doença de Chagas. Os grandes programas de saúde pública têm se concentrado na eliminação de cinco que são as mais comuns e facilmente tratáveis: oncocercose; filariose linfática, ou elefantíase; tracoma, uma das principais causas de cegueira; esquistossomose, um parasita transmitido por caramujos; e vermes intestinais.
O único controle de DTN que ocorreu em Camarões em 2025 foi uma distribuição de medicamentos em apenas um distrito que usou suprimentos remanescentes.
O governo estava lutando para manter programas críticos de malária e HIV que também haviam perdido financiamento dos EUA, e não voltou sua atenção para a oncocercose ou outros flagelos antigos.
“Estas são as doenças negligenciadas”, disse Emilienne Epée, que chefia o departamento de DTN no Ministério da Saúde de Camarões. “A prioridade do governo é evitar que as crianças morram de malária.”
A maioria dos programas de doenças negligenciadas usa medicamentos doados por empresas farmacêuticas —quase US$ 1 bilhão por ano. Esses fabricantes têm se mostrado dispostos a continuar enviando os tratamentos. Mas o financiamento dos EUA pagava por muitas das etapas-chave que levavam os medicamentos dos portos às pessoas, incluindo transporte e ajudas de custo para os profissionais de saúde que os entregavam. Alguns desses eram custos que os países poderiam absorver.
No entanto, os Estados Unidos também pagavam pelo processo crítico de vigilância: testar pessoas para garantir que os níveis de doença estavam diminuindo ou, finalmente, haviam chegado a zero, para que a distribuição de medicamentos pudesse parar. Essas pesquisas são caras. “Os recursos do governo não permitem pesquisas nacionais”, disse Epée.
Diferentemente de iniciativas como programas de tratamento de HIV que envolvem medicação para toda a vida, os programas de doenças negligenciadas visam a eliminação —a cada ano, um punhado de países ao redor do mundo tem conseguido declarar mais uma doença erradicada. A maioria desses programas estava sendo lentamente assumida pelos governos, reduzindo sua dependência de ajuda, mas esse processo foi jogado no caos pelo corte abrupto no financiamento.
Em resposta a perguntas sobre o futuro do programa, o Departamento de Estado enviou uma declaração por e-mail dizendo: “O Departamento de Estado está atualmente revisando os recursos para DTN para alinhá-los com o objetivo do governo Trump de tornar a América mais segura, mais forte e mais próspera.”