Durante o último ano, Mathew MacMillan, 47, carteiro de Winnipeg, no Canadá, adotou uma nova rotina: visitar uma clínica privada duas vezes por semana para doar plasma sanguíneo e ganhar um dinheiro extra.
A clínica está aberta quase todos os dias e, desde que se tornou um paciente regular, MacMillan criou o hábito de alternar os braços —usa o braço esquerdo para a injeção na terça-feira, e o direito, na sexta— para evitar cicatrizes. “Cem dólares não é muito dinheiro, mas ajuda a pagar as compras do mercado”, diz ele.
O plasma é utilizado na produção de medicamentos, e a doação é considerada de baixo risco. Questionamentos sobre a segurança dessa prática, porém, surgiram nos últimos dias, quando as autoridades de saúde canadenses anunciaram que investigam duas mortes recentes de pessoas que doaram plasma em clínicas privadas em Winnipeg, operadas pela Grifols, uma empresa espanhola da área da saúde.
Milhões de pessoas doam plasma frequentemente na América do Norte. Estima-se que 60% a 70% dos medicamentos derivados de plasma em todo o mundo sejam produzidos a partir de material doado nos Estados Unidos.
Além disso, a demanda por plasma está crescendo. O mercado de produtos medicinais derivados do plasma está avaliado em US$ 40,35 bilhões (aproximadamente R$ 219,9 bilhões) e espera-se que dobre nos próximos oito anos, à medida que os produtos são usados para tratar um número crescente de doenças, incluindo síndromes de imunodeficiência e distúrbios hemorrágicos.
O problema é que o impacto na saúde dos doadores frequentes não foi bem estudado, e não há consenso entre os órgãos reguladores de saúde sobre o intervalo de tempo que se deve aguardar entre as coletas de plasma.
Tanto no Canadá quanto nos EUA, as empresas podem pagar uma gratificação aos doadores de plasma, e as normas sanitárias permitem que as doações sejam feitas até duas vezes por semana. Mas as diretrizes variam dentro de cada país. Duas províncias canadenses, Colúmbia Britânica e Quebec, proibiram a prática de pagar por plasma. Nos EUA, a FDA recomenda que os doadores esperem pelo menos dois dias entre as coletas, enquanto a Cruz Vermelha estabelece um limite de uma vez a cada quatro semanas.
Os primeiros ensaios clínicos randomizados e controlados que examinaram o impacto da doação muito frequente de plasma foram publicados apenas nos últimos dois anos. Eles suscitaram preocupações, constatando que doadores frequentes apresentavam concentrações mais baixas de proteínas, anticorpos e outros biomarcadores no sangue após alguns meses e que essas reduções aumentavam com a maior frequência de doações.
Níveis anormalmente baixos de anticorpos podem colocar os doadores em risco de infecções, afirma Morten Haugen, um dos autores de um dos estudos.
Os impactos a longo prazo das doações frequentes de plasma também não estão claros.
A Europa adota uma abordagem muito mais conservadora em relação à doação de plasma, embora dependa fortemente de produtos plasmáticos importados de outros países. A União Europeia determina que as doações de produtos sanguíneos e alguns outros tecidos de origem humana devem ser voluntárias e não remuneradas. A Aliança Europeia do Sangue, associação de bancos de sangue sem fins lucrativos, recomendou limitar as doações a duas vezes por mês e alegou falta de dados de segurança no longo prazo.
Doar plasma é semelhante a doar sangue, mas difere no fato de que, após a coleta do sangue, o plasma —um líquido amarelo pálido— é separado dos glóbulos vermelhos, que são então devolvidos ao corpo do doador. Como os glóbulos vermelhos são devolvidos, as pessoas geralmente podem doar plasma com muito mais frequência do que doar sangue total.
Essa prática é considerada segura há muito tempo, e eventos adversos graves e óbitos são extremamente raros. Os doadores de plasma passam por exames médicos antes da coleta e são alertados sobre outros efeitos colaterais transitórios, como fadiga, desidratação e tontura.
Uma investigação realizada pela FDA em 2020 sobre 34 mortes relatadas como associadas à doação de plasma não determinou que a doação tenha sido a causa da morte em nenhum dos casos. A investigação descartou completamente a doação como causa em 31 casos.
Alguns fatores que podem colocar os doadores em risco de reações adversas graves ou morte incluem problemas cardíacos desconhecidos ou não divulgados, reação alérgica grave a um agente anticoagulante usado no processo de doação e desenvolvimento de infecção grave. Defeitos no equipamento que possam causar a entrada de uma bolha de ar na corrente sanguínea também foram citados como perigosos.
Para muitas pessoas na América do Norte, os pagamentos pela doação de plasma representam uma importante fonte de renda complementar. No Canadá, as recentes mortes de doadores de plasma reacenderam o debate sobre a ética da prática, especialmente porque as preocupações com o alto custo de vida têm dominado a política do país .