Chás que prometem perda de peso podem fazer mal à saúde – 28/08/2025 – Equilíbrio e Saúde

“Tome esse chá antes de dormir e veja sua barriga secar em dois dias.” “Perca 12 quilos em apenas uma semana com essa dieta.” “Bebida bomba emagrece um quilo por dia.” “Chá poderoso para murchar a barriga em três dias.”

Cada frase acima foi retirada de um post no TikTok ou no Kwai, redes onde esse tipo de publicação mais se dissemina. Juntos, os quatro conteúdos foram visualizados mais de 1 milhão de vezes.

Além de falarem sobre perda rápida de peso a partir da ingestão de chás, as publicações têm outro ponto em comum: são mentirosas e, muitas vezes, perigosas.

“Não tem milagre quando o assunto é emagrecer”, diz Vanille Pessoa, diretora da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição) e professora da Universidade Federal de Campina Grande. “Os chás que são indicados nesses posts podem até ajudar a perder peso de forma mais ágil, mas apenas no curto prazo e não de forma saudável.”

Um dos mais recomendados, o chá verde é diurético e, como diz Vanille, se usado para reduzir medidas, pode fazer com que a pessoa perca água, e não gordura. Além disso, tomá-lo em excesso pode levar à desidratação e ao aumento da pressão arterial, por causa da cafeína presente na planta.

Priscila Gil, endocrinologista e membro da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), aponta outros problemas relacionados a dietas que prometem perda rápida de peso, como tontura, câimbra e dor de cabeça. E, o mais grave: “Junto ao déficit energético pode vir um déficit vitamínico ou mesmo hidroeléctrico [de água corporal e eletrólitos essenciais ao organismo], colocando a pessoa em risco de morte”.

Ou seja, o fato de ser natural não significa que não possa fazer mal. Tanto não é que, em 2022, uma mulher de 42 anos morreu de hepatite fulminante causada pela ingestão de um chá que combinava diferentes ervas.

De acordo com o psiquiatra Adriano Segal, coordenador do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), outro ponto importante é que esses posts podem agravar quadro de saúde de um público específico.

“Pessoas com algum grau de distorção de imagem corporal relacionadas a excesso de peso podem ser mais vulneráveis a estratégias inadequadas voltadas para emagrecimento”, diz.

Novo corpo

Segundo Segal, os conteúdos desses posts não são novidade. “O que é novo é o meio de comunicação”, afirma, referindo-se às redes sociais. O médico lembra que, antes da internet, as dietas milagrosas estampavam capas de revista e eram assunto em programas de TV.

Além de TikTok, Kwai e afins, o WhatsApp é outro canal em que esse tipo de desinformação circula. Segundo dados da consultoria Palver, que monitora grupos públicos de mensagens, cerca de mil conteúdos relacionados a chás e emagrecimento circularam na plataforma em 30 dias.

Apenas uma dessas mensagens tinha o aviso “encaminhado com frequência”, e isso se explica, segundo Luis Fakhouri, cofundador da Palver e colunista da Folha, porque no WhatsApp funciona a lógica da venda, não a de curtidas ou compartilhamentos.

“A pessoa cria uma mensagem sobre o chá que ela vende e precisa informar onde comprar. Por isso é mais difícil um conteúdo desses viralizar no WhatsApp”, diz.

Também com o avanço da tecnologia veio a inteligência artificial, muitas vezes usada de maneira maléfica. “A pessoa que está navegando na rede nem sabe que aquela imagem pode não ser de uma pessoa real”, afirma Segal.

A imagem ou mesmo só a voz. Um post visualizado quase meio milhão de vezes usa a voz do médico Drauzio Varella, colunista da Folha, para dizer que o chá de louro, entre outros benefícios, “ajuda a reduzir aquele estômago alto”.

“Se a promessa é maravilhosa, fique atento”, diz Segal. E, recomendação dele e das outras especialistas entrevistadas para este texto: quem quer perder peso deve procurar ajuda médica.



Junto ao déficit energético pode vir um déficit vitamínico ou mesmo hidroeléctrico [de água corporal e eletrólitos essenciais ao organismo], colocando a pessoa em risco de morte

Fraude

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que posts anunciando chás, produtos naturais e outros tratamentos para perda de peso são uma “fraude”. Também recomenda que pessoas com problemas de saúde —como excesso de peso— procurem ajuda profissional.

O órgão diz ainda que “a divulgação de alegações terapêuticas indevidas está prevista como infração sanitária na lei 6.437/1977 e como crime no Código Penal”. Perfis que fazem posts que colocam a saúde em risco, portanto, podem ser denunciados.

Em suas diretrizes, Kwai e TikTok afirmam proibir posts indicando dietas que coloquem a saúde em risco. À Folha as plataformas disseram monitorar e excluir conteúdos danosos. “A empresa reconhece que a disseminação de notícias falsas é um desafio global e reforça seu compromisso em promover um ambiente digital seguro, confiável e responsável”, afirma o Kwai.

Autoria: FLSP

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