Identificada pela primeira vez em novembro de 2024 na África, a variante BA.3.2 da Covid-19 chegou a 23 países até fevereiro deste ano e agora se espalha rapidamente pelos Estados Unidos. Detectada em pacientes e em sistemas de esgoto de 29 estados americanos, a cepa, apelidada de Cicada, preocupa especialistas por ser diferente de outras variantes que já circularam, o que pode reduzir a eficácia das vacinas disponíveis.
Kyle B. Enfield, professor de medicina na Universidade de Virgínia (EUA), diz a seguir o que é preciso saber:
Como pneumologista e intensivista, atendo muitos pacientes com alto risco de Covid-19 grave devido a doenças pulmonares crônicas, além de pessoas que vivem com Covid longa. A pergunta mais frequente é: quanto precisamos nos preocupar com as novas variantes do vírus?
Até o momento, não há indícios de que a BA.3.2 seja mais perigosa ou cause doença mais grave do que as variantes que circularam no inverno de 2025 e 2026 nos EUA. Por ser significativamente diferente delas, porém, a vacina atual contra a Covid-19 pode não ser tão eficaz.
De onde veio a variante BA.3.2?
A BA.3.2 descende da variante ômicron, que surgiu no final de 2021.
Em comparação com as cepas predominantes do Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, a BA.3.2 carrega de 70 a 75 alterações genéticas na proteína spike, estrutura que permite a entrada do vírus nas células. É também essa parte que as vacinas usam para induzir o sistema imunológico a reconhecer o patógeno.
Pesquisadores identificaram a BA.3.2 pela primeira vez em novembro de 2024, na África. A variante iniciou sua disseminação global em 2025 e havia chegado a 23 países até fevereiro de 2026. O primeiro caso nos EUA foi detectado em um viajante que chegou ao país em junho de 2025. Desde então, foi encontrada em pacientes e em sistemas de esgoto de 29 estados.
O monitoramento de águas residuais é um dos métodos mais precoces para detectar mudanças de cepas, embora o número de estados que enviam dados ao CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças). dos EUA, tenha diminuído desde 2022, após o auge da pandemia.
O que torna a variante BA.3.2 diferente?
Todos os vírus sofrem mutações ao longo do tempo, e o que causa a Covid-19 faz isso especialmente rápido. A cada replicação dentro de uma célula, seu material genético pode sofrer alterações. A maioria dessas mudanças desaparece, mas algumas conferem vantagem ao vírus, facilitando sua disseminação.
Essas alterações dificultam o reconhecimento pelo sistema imunológico.
É como reencontrar pessoas 25 anos após o fim da escola: mudanças na aparência não impedem o reconhecimento, mas podem torná-lo mais lento. Se o contato fosse frequente ao longo do tempo, a identificação seria imediata. Da mesma forma, mudanças no material genético do vírus afetam a eficácia das vacinas, que “treinam” o sistema imunológico com base nas versões mais comuns em circulação.
As vacinas atuais contra a Covid-19 foram desenvolvidas para proteger contra cepas da linhagem JN.1, predominantes nos EUA desde janeiro de 2024. A BA.3.2, no entanto, difere o suficiente dessas cepas para reduzir a capacidade de reconhecimento inicial pelo organismo.
Isso não significa que a vacinação deva ser evitada. Um amplo conjunto de evidências mostra que as vacinas reduzem hospitalizações e mortes por Covid-19. Quando há menor correspondência com a variante em circulação, a resposta imune pode ser mais lenta.
Quais riscos a variante BA.3.2 representa?
Como o sistema imunológico pode ter mais dificuldade para reconhecer a BA.3.2, a variante tende a se disseminar com mais facilidade, o que pode levar a aumento de casos.
Apesar da rápida propagação, não há indicação de que esta seja mais perigosa ou cause quadros mais graves do que variantes que circularam nos últimos anos.
Ainda assim, a proteção continua importante, sobretudo para pessoas com condições crônicas, mais suscetíveis a formas graves da doença.
Embora a incidência de Covid longa tenha diminuído desde o início da pandemia, ela ainda ocorre em cerca de 3 a cada 100 casos.
Como se proteger da variante BA.3.2 da Covid
Medidas básicas ajudam a reduzir o risco de infecção e transmissão:
- Lavar as mãos após usar o banheiro, antes de preparar alimentos ou comer e após contato com pessoas doentes
- Ficar em casa ao apresentar sintomas, tanto para recuperação quanto para evitar transmissão; pessoas próximas podem ter condições que aumentam o risco de formas graves
- Priorizar ambientes abertos e reduzir o tempo de permanência em locais fechados e cheios
- Em caso de maior risco individual, buscar orientação de um médico
Este texto foi publicado originalmente no The Conversation. Clique aqui para ler