A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que se manifestará nas próximas semanas sobre a autorização para a venda nas farmácias de dois concorrentes do Ozempic e Wegovy, as canetas emagrecedoras fabricadas pela Novo Nordisk que têm a semaglutida como princípio ativo.
A substância perde a patente em 20 de março, mas ainda não há rivais com registro da agência no Brasil. Também não é certo que a Anvisa aprovará os dois remédios, pois há casos em que são solicitados mais dados ou que todo o processo é rejeitado.
O órgão regulador diz que os pedidos estão em fase de revisão final interna para receber as primeiras manifestações. Um dos medicamentos avaliados é da EMS, único laboratório nacional que já lançou canetas emagrecedoras, de geração anterior, à base de liraglutida e rivais dos remédios Saxenda e Victoza.
O outro pedido em fase avançada foi originalmente protocolado pela Momenta, empresa do grupo Eurofarma, que em nota disse ter transferido o processo para Ávita Care. A Eurofarma já atua no mercado dos emagrecedores, pois firmou em 2025 parceria com a Novo Nordisk para a entrega do Poviztra e Extensior, duas marcas de semaglutida.
A agência ainda afirma que rejeitou, em dezembro, o pedido de registro de um produto do laboratório Megalabs contendo liraglutida.
A resposta da Anvisa à reportagem foi dada no último dia 5, após questionamento feito por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação).
As canetas são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido no intestino que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. As principais marcas no mercado são compostas por semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk) e tirzepatida (Mounjaro, da Lilly), que também atua no receptor do hormônio GIP e tem patente até 2036.
Existe forte pressão de consumidores, de parte da indústria e do mundo político para ampliar a oferta e baixar custos dos emagrecedores. O aumento do consumo para fins estéticos ou fora da bula, além da popularização de versões manipuladas desses medicamentos, porém, são pontos que preocupam associações e sociedades médicas.
No último dia 9, a Câmara dos Deputados ainda aprovou requerimento de urgência de projeto de lei para quebrar a patente de produtos contendo tirzepatida, como Mounjaro. A indústria e o governo são contra a ideia.
No total, a Anvisa tem 14 pedidos de registros de produtos contendo semaglutida, além de sete de liraglutida. Nenhum dos casos é enquadrado como genérico, categoria em que o preço deve ser ao menos 35% inferior ao do produto de referência. Ainda assim, o mercado avalia que a concorrência deve baratear as canetas.
No ano passado, a disputa pelo mercado dos emagrecedores ganhou novo rumo com atuação direta do governo Lula (PT). A Anvisa atendeu a um pedido do Ministério da Saúde e passou na frente da sua fila de análise 20 pedidos de remédios emagrecedores contendo liraglutida ou semaglutida.
O movimento do governo se deu dias após o ministro Alexandre Padilha (PT) fazer uma espécie de propaganda dos emagrecedores que a EMS havia lançado.
“Aquelas canetinhas que o pessoal está usando direto por aí, mais um produto na área, baixando o preço para a população”, disse o ministro em vídeo gravado após evento da farmacêutica.
A EMS é uma das empresas em melhor posição no mercado dos emagrecedores. A farmacêutica tem uma fábrica própria de peptídeos sintéticos em Hortolândia (SP), tecnologia aplicada na produção das canetas. A empresa também recebeu créditos de R$ 736 milhões desde 2020 do BNDES relacionados à planta.
Em nota, a EMS diz que aguarda a resposta da Anvisa sobre os produtos de semaglutida e que as canetas já lançadas (Lirux e Olire, de liraglutida) são amplamente comercializadas.
O plano de acelerar o lançamento das canetas recebeu críticas de entidades como a Interfarma e o Sindusfarma, que apontaram risco de insegurança jurídica e de atraso em outras avaliações. Já a PróGenéricos disse que havia aumento exponencial da procura pelos fármacos e que a medida tem “razões excepcionais de interesse público”.
A estratégia também é vista com ressalvas por técnicos da Anvisa. Em documentos internos obtidos pela Folha, eles afirmam que a prioridade dada aos emagrecedores pode atrasar o lançamento de terapias mais importantes, incluindo para doenças graves, como câncer, epilepsia, Parkinson avançado e AME (Atrofia Muscular Espinhal).
A Anvisa diz que definiu um limite de processos acelerados para que não haja prejuízo a outras terapias. Ainda afirma que havia risco de desabastecimento das canetas. A decisão da Anvisa ainda prioriza produtos com etapas de fabricação nacional.
Integrantes do governo ainda dizem que existe o plano de levar o tratamento ao SUS. Nas primeiras análises, a incorporação foi barrada por causa do custo bilionário. Uma das frentes abertas para levar o produto à rede pública é a parceria firmada entre a EMS e a Fiocruz para transferir à fundação a tecnologia de produção das canetas.