Nasci em 1957, ano do Sputnik, primeiro satélite artificial lançado pela então União Soviética, dando início à corrida espacial.
Cresci viajando para Ubatuba, quando quase tudo lá era mato. Conheci a maioria das praias de ônibus e a pé, por trilhas e pinguelas. Só em 1965 meus pais compraram o primeiro carro, um Fusca 1959.
Foi em Ubatuba que vi, ou tentei ver, o pouso da Apollo 11 na Lua, nas férias de julho de 1969. A TV em branco e preto do vizinho era pequena e só chuvisco, e mais imaginei do que enxerguei quando Neil Armstrong deu o pequeno passo para um homem e um salto gigante para a humanidade.
Meio às cegas, acreditei. Tornei-me entusiasta da ciência e da tecnologia, mas também amante da natureza, em contato com a mata atlântica que se atira da serra ao oceano.
Queria ser astronauta, depois médico, biólogo —acabei jornalista. Entrei na Folha como redator em 1986, ano do cometa Halley e de duas tragédias, a do ônibus espacial Challenger e a da usina nuclear soviética Tchérnobil.
Escrever sobre ciência e tecnologia foi escolha natural, com foco em biologia. O ano de 1988 trouxe o assassinato do seringueiro Chico Mendes e manchetes no mundo todo sobre queimadas que podiam ser flagradas por satélites herdeiros do Sputnik.
Num programa interno da Folha, escolhi visitar o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus, e o Museu Paraense Emilio Goeldi, em Belém. Queria conhecer de perto a maior floresta tropical do planeta. Vi o dossel da mata a perder de vista, de 40 m de altura.
Aprendi com Antonio Donato Nobre que era balela a história de uma Amazônia pulmão verde da Terra. Mas, também, que o carbono nela estocado agravaria o efeito estufa se a destruição continuasse galopando e sua biomassa virasse fumaça.
Gato escaldado, após 38 anos e quase 500 mil quilômetros quadrados de floresta derrubados, desacelerei a produção de reportagens sobre desmatamento e mudança climática. Ainda abordo o tema em colunas, mas já sem a ilusão de que eventos mastodônticos à moda da COP30 possam reverter a crise do clima.
A humanidade, ou melhor, países e populações pobres enfrentam e enfrentarão tempos bicudos. Não posso deixar de pensar nisso ao ler notícias sobre o sobrevoo da Lua pela Artemis 2 e ao ver as lindas fotos que os astronautas enviam do céu.
Enquanto escrevo, o quarteto colorido e diverso se encaminha para a sempre arriscada reentrada na atmosfera terrestre (foi nesse processo que o ônibus espacial Columbia se desintegrou em 2003). Boto fé que tudo terá corrido bem.
Espero que os tripulantes, incólumes, deem muitas palestras e sirvam de exemplos para crianças e jovens se entusiasmarem com ciência, como há 57 anos. Se as tecnologias dela derivadas estão a castigar o planeta, será também crucial investigação metódica responsável para tirarmos o pé do lodo climático.
Faço minhas as palavras ressabiadas de Gilberto Gil em 1967, na canção “Lunik 9”, sonda soviética que rondou a Lua: “Lá se foi [o homem] buscando a esperança que aqui já se foi / Nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão:/ A Lua foi alcançada afinal, muito bem / Confesso que estou contente também”.
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