O ser humano come e vai ao banheiro. Esse fenômeno é conhecido como reflexo gastrocólico, um mecanismo fisiológico que conecta estômago e intestino grosso e é parte do funcionamento normal do sistema digestivo. Em alguns casos, porém, essa resposta natural pode se intensificar e gerar urgência evacuatória frequente.
Ao receber alimento, o estômago se distende e envia sinais, por meio do sistema nervoso entérico e de hormônios digestivos, que estimulam o cólon a se contrair. Em linguagem simples, ao entrar comida nova, o organismo abre espaço para o que já foi processado.
Segundo Antônio Carlos da Silva Moraes, gastroenterologista da FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia), o sinal de alerta se acende quando essa urgência de ir ao banheiro acontece várias vezes ao dia e quando é acompanhada de dor abdominal, cólica, diarreia e gases. “Se notar outros sintomas, como perda de peso inexplicada, sangue nas fezes ou fadiga, procure um médico”, recomenda.
Com uma multiplicidade de causas prováveis, o reflexo gastrocólico hiperativo não é um evento isolado. Alterações nesse sistema podem surgir por diferentes motivos, como inflamações, mudanças na microbiota intestinal e até fatores emocionais.
Além disso, a hiperatividade varia de acordo com fatores como idade, doença preestabelecida e dieta alimentar.
Moraes afirma que, nos idosos, devido a alterações fisiológicas naturais do envelhecimento, as contrações musculares que impulsionam o alimento pelo trato gastrointestinal são menos intensas. Já os bebês em aleitamento podem ter um reflexo mais ativo, uma vez que o leite materno contém peptídeos e hormônios que estimulam a motilidade intestinal.
Doenças gastrointestinais também podem estar relacionadas à hiperatividade, como a síndrome do intestino irritável, com um aumento do número de evacuações provocado pelo espasmo da musculatura do intestino. Ou em um quadro de doença de Crohn, cuja inflamação crônica no intestino torna o cólon mais reativo à chegada de alimentos ao estômago.
“Os principais sintomas são diarreia, mais de cinco vezes ao banheiro, sangramento nas fezes, muco, muita cólica e urgência para evacuar”, diz Vanessa Prado, gastroenterologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas.
Hipertireoidismo e distúrbios psiquiátricos também entram na lista de fatores de risco.
“A tiroide vai produzir hormônios de forma descompensada e muito mais do que deve, e a liberação de hormônios do sistema nervoso central, como serotonina, também vai estar exacerbada, aumentando o movimento do aparelho digestivo e o reflexo gastrocólico”, afirma Prado.
Segundo ela, fatores emocionais são apontados como amplificador da resposta intestinal —agravam os sintomas devido aos picos de adrenalina. Nesses casos, a liberação de suco gástrico no estômago e o peristaltismo intestinal aumentam, assim como o número de evacuações.
Da mesma forma, dietas ricas em gordura e o consumo de carboidratos fermentáveis tendem a estimular as idas ao banheiro. Para evitar o desarranjo intestinal, o indicado é “fracionar refeições, evitar grandes volumes e reduzir alimentos gatilho”, diz Gustavo Patury, gastroenterologista e cirurgião do aparelho digestivo do Hospital São Luiz, da Rede D’Or.
Como tratar o reflexo gastrocólico hiperativo
O diagnóstico do reflexo gastrológico hiperativo envolve a realização de exames para descartar doenças inflamatórias, infecciosas ou estruturais. Em muitos casos, ajustes na dieta e no estilo de vida são suficientes para reduzir os sintomas.
“O tratamento começa pela alimentação. Redução do consumo de gordura, cafeína, álcool e ultraprocessados. Quando necessário, entram medicamentos como antiespasmódicos, moduladores da motilidade e probióticos”, afirma Patury.
Para manter o intestino regulado e a saúde intestinal, ele recomenda “uma dieta rica em fibras, boa hidratação, atividade física, sono adequado e controle do estresse“.