Pesquisadores contestam hospital inteligente do SUS em SP – 02/04/2026 – Mônica Bergamo

A construção do primeiro hospital inteligente do SUS no complexo do Hospital das Clínicas, em São Paulo, projeto celebrado por governos estadual e federal como marco de inovação na saúde pública, preocupa pesquisadores que apontam risco para a continuidade das atividades científicas do IAL (Instituto Adolfo Lutz).

A obra prevê a transferência de estruturas de pesquisa de quatro prédios para um novo endereço, também dentro do complexo.

“A criação do hospital inteligente é um salto de qualidade para a saúde pública, mas isso não pode ser feito sem um planejamento por parte do governo de São Paulo sobre como ficarão as pesquisas realizadas no Instituto Adolfo Lutz, sob o risco de comprometermos o funcionamento de uma das mais importantes instituições de pesquisa em saúde do país”, afirma a presidente da APqC (Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo), Helena Dutra Lutgens.

“Não me parece lógico jogar milhões de investimento público nos últimos anos na lata do lixo sendo que há local alternativo para receber este importante hospital”, segue.

A entidade afirma que a obra exigirá um investimento adicional de cerca de R$ 170 milhões para viabilizar a transferência dos laboratórios, hoje instalados em edifícios previstos para demolição.

O novo empreendimento será administrado pelo próprio Hospital das Clínicas, que, assim como o Instituto Adolfo Lutz, é uma instituição vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Segundo a APqC, ainda não há um plano detalhado para a realocação das estruturas, nem clareza sobre a origem dos recursos extras ou o cronograma das intervenções. Pesquisadores temem que a mudança comprometa pesquisas em andamento e a capacidade operacional de uma das principais instituições de saúde pública do país.

Procurada, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo afirma que realiza reuniões periódicas com a administração do Hospital das Clínicas “para o detalhamento técnico do projeto executivo, com os órgãos envolvidos em cada etapa, incluindo a diretoria do Instituto Adolfo Lutz”.

A pasta acrescenta que “nenhuma decisão será tomada de forma unilateral” e que todas as definições estão sendo debatidas e alinhadas entre as instituições envolvidas, “com respeito às atribuições de cada uma”. Segundo a secretaria, o processo é conduzido de modo a não impactar a assistência, garantindo a continuidade da pesquisa e das demais atividades essenciais.

Já o Ministério da Saúde e o Hospital das Clínicas não quiseram se manifestar, afirmando que a responsabilidade sobre o terreno, por contrato, é do Estado de São Paulo.

O Instituto Adolfo Lutz é referência nacional em áreas como virologia, imunologia e controle de doenças infecciosas, tendo atuado, por exemplo, no desenvolvimento de metodologias para identificação de variantes da Covid-19. Parte de suas instalações inclui laboratórios de alta complexidade e elevados níveis de biossegurança, cuja transferência exige adaptações técnicas específicas.

De acordo com a APqC, alguns dos prédios que devem ser demolidos ou adaptados receberam mais de R$ 100 milhões em investimentos nas últimas décadas. A associação afirma ainda que a comunidade científica não foi consultada previamente sobre as mudanças.

“O patrimônio científico de São Paulo é protegido pelo artigo 272 da Constituição Estadual. Nenhuma intervenção em áreas ou prédios de pesquisa pode ser feita sem consulta prévia à comunidade científica e aprovação da Assembleia Legislativa”, afirma Helena Goldman, advogada da APqC.

Pesquisadores defendem que há alternativas dentro do próprio complexo capazes de abrigar o novo hospital sem a necessidade de desmobilizar estruturas já consolidadas, como o campo de futebol e a piscina da Faculdade de Medicina da USP.

HOSPITAL INTELIGENTE

O projeto do hospital inteligente, chamado de ITMI (Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente), prevê 800 leitos, forte integração digital e uso intensivo de tecnologias como inteligência artificial, big data e telemedicina. Com investimento total estimado em cerca de R$ 1,9 bilhão e financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics, a unidade esta prevista para 2029.

A iniciativa integra um plano mais amplo do governo federal de criação de uma rede nacional de hospitais e UTIs inteligentes, com promessa de reduzir significativamente o tempo de espera por atendimento especializado.

com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autoria: FLSP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima