O Inca (Instituto Nacional de Câncer) anunciou nesta quarta-feira (1º) o início de um estudo de dois anos para avaliar a implementação de um programa de rastreamento do câncer de pulmão no SUS (Sistema Único de Saúde). O tumor de pulmão, traqueia e brônquios é a principal causa de morte por câncer no Brasil, mas pode ser menos letal quando detectado precocemente.
A pesquisa, conduzida pelo Inca com apoio da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e patrocínio da farmacêutica AstraZeneca, deve começar o recrutamento de participantes ainda no primeiro semestre deste ano. Serão pelo menos 397 pessoas da capital carioca que estão cadastrados no Programa de Controle do Tabagismo da Secretaria Municipal de Saúde, ação que oferece tratamento gratuito na Atenção Primária à Saúde.
Os voluntários devem ter entre 50 e 80 anos, serem fumantes ou ex-fumantes (que tenham parado nos últimos 15 anos) e apresentar consumo diário de 20 cigarros ou mais, sem diagnóstico prévio ou sintomas da doença, como tosse com sangue ou falta de ar.
O objetivo do rastreamento é identificar nódulos precocemente, para permitir a remoção antes do avanço da doença e evitar casos graves que exigem tratamento agressivo e apresentam alta taxa de mortalidade.
O estudo vai avaliar a viabilidade do programa em uma região com alta incidência de outras doenças respiratórias, como tuberculose, que pode gerar falso-positivos e exames desnecessários, além de analisar os riscos, considerados baixos, da exposição à radiação ionizante do exame de imagem.
Para o rastreamento, será utilizada a tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD), que oferece menor radiação em comparação à tomografia convencional. Na prática, caso o rastreio seja adotado pelo SUS, os exames seriam realizados em policlínicas, encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde, de forma semelhante ao rastreio do câncer de mama.
Em caso de diagnóstico positivo durante o estudo, os pacientes serão acompanhados e tratados pelo Hospital do Câncer 1, unidade do Inca referência no Rio de Janeiro. O tratamento depende do estágio da doença: nos estágios iniciais, a cirurgia ou a radioterapia localizada (radiocirurgia) podem ser suficientes, enquanto alguns pacientes com tumor mais avançado podem passar por quimioterapia após a cirurgia, sendo o tratamento definido conforme o tipo e tamanho do tumor.
Em 2024, o Brasil registrou 32,4 mil mortes por câncer de brônquios e pulmão, número superior ao do câncer de próstata (17,8 mil) e de mama (20,8 mil). Para o triênio 2026-2028, o Inca estima 35,3 mil novos casos, sendo 18,7 mil em homens e 16,6 mil em mulheres.
Poliana Blasi, oncologista do Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques de Carvalho, unidade referência em oncologia em São Paulo gerido pelo Einstein Hospital Israelita, destaca que os fatores de risco para o câncer de pulmão são principalmente ambientais, incluindo cigarro, exposição a fogão a lenha e substâncias ocupacionais como amianto, enquanto apenas uma pequena parcela, de 2% a 8%, está relacionada a mutações genéticas herdadas.
Blasi explica que, nos estágios iniciais, os sintomas podem ser sutis, incluindo tosse persistente, falta de ar, dor ou presença de sangue no escarro. Quando a doença está metastática, os sinais dependem da localização das metástases, como dor óssea, e podem ser confundidos com outras condições, como DPOC, pneumonia ou covid-19, o que dificulta o diagnóstico precoce.
A repórter viajou a convite da AstraZeneca.