Geralda Áurea Pereira, 63, chegou ao trabalho em 2019 e recebeu a notícia de um acidente com o seu chefe. Quando todos foram ao hospital visitá-lo, começou a sentir uma intensa dor no estômago. “Era uma sensação de que tinha uma faca me cortando no início da boca do estômago”, diz.
Passou o dia com incômodo e, à noite, foi para um pronto-socorro em Itabirito (MG). Lá, recebeu o diagnóstico de crise na vesícula e foi liberada. Na manhã seguinte, voltou à unidade de saúde, recebeu medicação e teve alta novamente. Chegou em casa, gritou pela vizinha e desmaiou. Estava infartando.
“Nunca passou pela minha cabeça que eu poderia ter infartado. Eu era muito saudável”, diz Geralda. Hoje, com 45% do coração comprometido, ela toma 15 remédios por dia. “Não sei como não morri.”
Diferentemente da dor no peito irradiada para o braço, mais comum em homens, o infarto em mulheres costuma se manifestar de outras formas. Dor no estômago, queimação, náusea, vômito, cansaço extremo, sudorese, dor nas costas e dor no pescoço estão entre os sinais frequentemente confundidos com doenças gástricas ou crises de ansiedade.
Um posicionamento da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia), publicado em 2025, afirma que as doenças cardiometabólicas em mulheres são subdiagnosticadas e subtratadas. Doenças cardiovasculares, porém, são a principal causa de morte em mulheres no Brasil, superando todos os tipos de câncer, conforme o Ministério da Saúde. O infarto, especificamente, mata oito vezes mais que o câncer de mama, segundo a SBC.
Ao tomar conhecimento desses dados sobre subdiagnóstico em mulheres, Ana Luiza Bemquerer, 27, passou a acreditar que os sintomas que antecederam a morte de sua mãe, em novembro de 2025, poderiam ter sido melhor investigados.
Tammy Donin Bemquerer, 63, começou a sentir uma queimação que subia pelo estômago e vomitou a noite inteira, recorda Ana Luiza. Chegou ao hospital no Rio de Janeiro acompanhada pela filha e relatou os sintomas, que incluíam cansaço extremo, enjoo, vômito, e suor frio. Foi diagnosticada com intoxicação alimentar e liberada.
Passou quatro dias debilitada, conta a filha. Quando começou a melhorar, foi realizar tarefas domésticas, sentiu uma dor muito forte e parou de respirar. Foi levada às pressas ao hospital, onde tentaram reanimá-la por 40 minutos. O laudo registrou “morte súbita”, com referências a gastrite e tabagismo.
Ao ler as mensagens no celular da mãe, Ana Luiza descobriu que Tammy não acreditava na intoxicação alimentar e descrevia um cansaço nunca sentido antes. “Ninguém morre de gastrite”, diz Ana Luiza.
A médica Gláucia Moraes, diretora de Saúde da Mulher na SBC, afirma que apesar de os sinais indicarem um provável infarto é difícil comprovar o subdiagnóstico porque é necessário sempre fazer necropsia. A família de Tammy, abalada pela morte, optou por não fazer.
Segundo a médica, a dor que parece ser gastrite sentida por Tammy e por Geralda, pode ser uma isquemia miocárdica. “A isquemia da coronária direita provoca exatamente esses sintomas”.
Por que mulheres morrem mais
Diferentes estudos nacionais e internacionais mostram que o infarto é mais letal em mulheres do que em homens. Em 2023, um levantamento global do Hospital Oswaldo Cruz com 250 milhões de pacientes apontou risco 24% maior nas mulheres.
Um estudo da PUC do Paraná publicado em 2025 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia acompanhou cerca de 5.000 pacientes internados por infarto no SUS (Sistema Único de Saúde) em Curitiba entre 2008 e 2015. Os dados revelaram que mulheres entre 45 e 55 anos apresentam risco de morte pós-infarto significativamente maior do que homens da mesma faixa etária.
Apesar de possuírem, teoricamente, menos comorbidades clássicas, as mulheres nessa faixa etária estão entrando na perimenopausa e menopausa e perdem o efeito protetor do estrogênio nas artérias.
José Rocha Faria Neto, cardiologista da PUC-PR e um dos autores do estudo, diz que o padrão é documentado há pelo menos duas décadas e tem explicações biológicas e sociais.
Não há formação nas faculdades para médicos e enfermeiros pensarem no infarto da mulher
A doença coronariana na mulher tem um espectro mais amplo do que no homem, diz Olga Souza, diretora nacional de Cardiologia da Rede D’Or. Enquanto o infarto masculino costuma ser causado pelo rompimento de placas nas artérias, o feminino pode envolver doença da microcirculação, em vasos tão pequenos que não aparecem no cateterismo, e até um tipo de infarto com coronárias completamente normais.
Para Moraes, o quadro biológico diferentemente do infarto na mulher faz não apenas com que elas sejam liberadas sem diagnóstico, mas que, quando internadas, não recebam tratamento adequado.
Mulheres têm maior probabilidade de não receber protocolos básicos para infarto como eletrocardiogramas seriados, remédios para desobstruir artérias e cateterismo. Além disso, explica, os ECGs iniciais em mulheres podem não apresentar alterações em até 40% dos casos.
Neide Braga, 75, chegou à unidade de saúde às 9h em julho de 2025 com desconforto abdominal e enjoo, conta a filha, Manuela Braga, 46. Os médicos pediram um eletrocardiograma, que não apresentou alterações. Perto das 12h, diz Manuela, sua mãe teve vômito intenso e falta de ar. Às 15h, morreu.
Uma segunda médica chamada para uma manobra de emergência, diz Manuela, apontou que provavelmente tinha sido um infarto, mas o laudo registrou causa desconhecida.
“Eles tiveram tempo suficiente. De 9h até antes das 15h, muita coisa poderia ter sido feita”, diz Manuela, que preferiu não fazer autópsia. “Não ia trazer ela de volta. A única coisa que faço questão é falar para todo mundo que dor abdominal deve ser desconfiada. Eu não sabia”.
O retardo no atendimento começa antes da chegada ao hospital. Pesquisa feita na Suécia mostrou que mulheres chegam em média 42 minutos depois dos homens ao serviço médico após o início dos sintomas tanto por não reconhecerem os sinais, quanto por tenderem a deixar a saúde em segundo plano. “A mulher leva o marido, o filho, o vizinho, mas quando o sintoma é dela, minimiza”, diz Souza.
As mulheres também carregam durante a vida inteira vulnerabilidades biológicas que os protocolos de infarto ainda não contemplam adequadamente. Há risco ligado a fatores hormonais e reprodutivos —complicações na gestação, síndrome dos ovários policísticos e uso de anticoncepcionais.
Os fatores clássicos, como hipertensão, tabagismo e obesidade, são mais letais nelas. “A mulher que fuma tem muito mais chance de infartar do que o homem que fuma”, diz Gláucia Moraes. “Mas ninguém fala disso. Ninguém pergunta sobre ansiedade, depressão, violência“.
“Não há formação nas faculdades para médicos e enfermeiros pensarem no infarto da mulher”, diz Moraes. “Esses dias estava dando aula sobre infarto na UFRJ e apresentei o quadro da mulher. Os alunos se assustaram, disseram que nunca tinham ouvido falar nisso”. Por isso, o trabalho da SBC é divulgar os sintomas, diz.
Dados do Google Trends mostram um aumento no interesse por “sintomas de infarto mulher” a partir do fim de 2024. No último ano, as buscas chegaram a um patamar dez vezes maior do que as relacionadas aos sinais de infarto em homens.
No início deste ano, uma conhecida de Ana Luiza apresentou sintomas semelhantes aos de Tammy e estava ignorando-os. Ela interveio contando o que havia acontecido com a mãe, e pressionou a mulher a ir a uma emergência cardíaca. No hospital, confirmou-se o infarto. Os médicos reverteram o quadro, ela ficou internada no CTI e sobreviveu.