Como em muitos prédios, no elevador do meu uma tela presa ao alto exibe notícias gerais e também assuntos internos do condomínio. Acho chato, porque toda vez meu olho se fixa naquela mídia e desço os seis andares hipnotizada, lendo coisas que não gostaria —pelo menos não na hora em que pego o elevador. Mas não tem jeito, só se eu descer de escada, o que é raro.
Certo dia, ao descer para a garagem, li: “SUS abre atendimento para pessoas com adicção de jogos/bets”. Passou rápido demais, logo aquela informação que me interessou. Não tive dúvida, fiquei andando de elevador até ela aparecer de novo.
Há tempo venho querendo falar do vício em jogo. Ao ler a notícia, lembrei da Ana, uma amiga que fiz durante o tratamento do meu alcoolismo. Ficamos muito próximas e lembro dela contando: “Alice, tive o azar da sorte do iniciante: ganhei uma bolada e achei que tinha descoberto uma maneira fantástica de resolver meus problemas financeiros”. Ela é alcoólatra e tentou descontar sua compulsão nos jogos. “Eu estava tentando parar de beber, e desde a primeira vez que entrei num bingo senti um alívio e uma excitação imediata. Uma sensação muito semelhante à de beber.” Naquela época, os bingos ainda existiam.
Liguei para a Ana e conversamos. É uma batalha vencer também esse vício. Se para mim já incomoda demais a massiva propaganda de bets, para ela é uma afronta. “Eu vejo as bets como a nova pandemia, mas as pessoas não falam muito disso. Gente bem jovem deixa de comer para jogar. Muitos tentam se matar e só então procuram grupos de jogadores anônimos. Triste demais. É uma doença silenciosa. Quando a família se dá conta, o jogador já está nas mãos de agiotas. O rombo vem grande e a falta de luz no fim do túnel leva à vontade de morrer. Bets são muito piores do que antigamente porque o serviço está 24 horas disponível para o jogador.”
Desliguei e fiquei pensando no que ela disse. Talvez seja por isso que aquela frase no elevador tenha capturado minha atenção. A gente costuma associar vício a substâncias —álcool, drogas—, mas esquece que existem outros caminhos para a mesma armadilha. É um prazer viciante e está na mesma caixinha das drogas. Não tinha me ocorrido que hoje quem sofre com isso não precisa mais entrar em um cassino. O cassino mora dentro do celular. Está no bolso, na mesa do jantar, no intervalo do trabalho, de madrugada. E, como quase todo vício, começa pequeno, discreto.
Quando o problema está em evidência, vira assunto de novela. Atualmente, na trama das sete da Globo, Antonio Calloni faz o papel de um viciado em jogos. Vive endividado e dando trabalho para o filho. Daí termina a novela, começa o futebol e as propagandas de bets predominam. Com muito luxo, beleza e provocação. É uma verdadeira convocação para o jogo. Quem nunca se arriscou, como eu, fica curioso para saber mais.
Ainda bem que em Alcoólicos Anônimos aprendi muito sobre ser uma adicta, condição que vivi por muitos anos. E a base do vício é uma só, tanto que muita gente em recuperação do alcoolismo já foi obeso ou adicto em jogos e outras drogas. Aprendi que não dá para brincar com substâncias e situações que só vão me levar para o buraco. Sou compulsiva e impulsiva.
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