Homens recorrem à prática de ‘ciclar’ com anabolizantes – 11/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

No famoso desenho animado, o personagem Popeye recorre a espinafre para ganhar músculos em questão de segundos. No mundo real, a transformação não acontece de forma mágica, mas a busca por resultados rápidos tem levado homens a “ciclar” com anabolizantes, uma prática que, ao contrário do espinafre de Popeye, traz riscos à saúde, principalmente para o coração.

“A prática consiste em usar testosterona por um período definido de semanas ou meses, geralmente com objetivos estéticos, principalmente para o ganho de massa muscular”, diz Marcel Segalla, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e integrante do Centro de Medicina do Estilo de Vida, que estuda o uso de esteroides anabolizantes.

A expressão “ciclar” se deve à prática de usar essas substâncias por ciclos específicos. O usuário toma o anabolizante por um tempo, depois interrompe o processo para tentar recuperar a produção natural do hormônio e na sequência inicia um novo ciclo, para deixar o corpo “bombado”.

Os anabolizantes levam o músculo a sintetizar mais proteína e, com essa matéria-prima em abudância, as fibras musculares crescem, processo conhecido como hipertrofia.

Foi em busca disso que Inácio (nome fictício), 29, decidiu fazer ciclos com anabolizantes. Ele conta que fez dois ciclos, nos últimos meses de 2024 e 2025, para estar como queria nas viagens de Réveillon. O primeiro ciclo durou oito semanas, e o segundo, seis semanas.

Ele conta que queria ganhar mais volume e definição, mas levaria muito tempo para chegar ao resultado almejado sem o uso da substância. Só não esperava ficar mais calvo (as “entradas” aumentaram, ele diz) e ter foliculite na região do tórax.

Os efeitos, porém, vão muito além. Segundo o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), os anabolizantes podem afetar diversos sistemas e órgãos do corpo. O risco mais severo envolve o sistema cardiovascular.

“O coração também é um músculo e, por isso, pode sofrer os efeitos dessas substâncias. O uso pode provocar hipertrofia do miocárdio e redução da quantidade de sangue que o coração consegue bombear a cada batimento. Com o tempo, isso pode evoluir para insuficiência cardíaca“, afirma.

De acordo com Marcel Segalla, muitas pessoas que apostam nos ciclos de anabolizantes dizem que os exames médicos permanecem inalterados após um tempo de uso, o que leva à falsa impressão de que a substância é segura. “O problema são os efeitos no longo prazo.”

O personal trainer Bruno Masini, 42, conta que começou a “ciclar” aos 18 anos e só enfrentou uma complicação grave quase 20 anos depois, aos 37. “Não tive nenhum sinal de que eu iria infartar.”

Bruno trabalhava como dançarino de axé nos anos 1990, e aos 16 anos começou a frequentar a academia para tentar ganhar corpo e aumentar suas chances de trabalho. E então decidiu experimentar anabolizantes.

Ele afirma que os exames de rotina nunca apontaram alterações importantes. Até que, em 15 de junho de 2021, durante um treino de pernas na academia, começou a sentir falta de ar e uma forte pressão no peito. Horas depois, no hospital, recebeu o diagnóstico de infarto e precisou passar por um cateterismo de emergência para desobstruir uma artéria.

“Eu acho que eu só não morri porque consegui chegar a tempo no hospital, antes de uma parada cardíaca”, diz. “Foi algo que foi se acumulando no corpo até que uma hora explodiu.”

Os efeitos dos anabolizantes também não se limitam ao sistema cardiovascular. Segundo Macedo, da SBEM, essas substâncias podem provocar alterações no fígado, nos rins e no sistema reprodutor.

“O uso prolongado de testosterona pode levar à supressão da produção natural do hormônio pelos testículos, resultando em redução do tamanho testicular, infertilidade e queda na produção de espermatozoides”, afirma.

Além dos efeitos físicos, o uso tem sido associado a alterações comportamentais e transtornos psiquiátricos. Estudos apontam maior incidência de irritabilidade, agressividade e variações intensas de humor, além de quadros de ansiedade, depressão e distúrbios do sono entre usuários.

Estudos também indicam que o uso de testosterona pode levar à dependência. Uma revisão publicada em 2014 no American Journal of Addictions analisou diferentes pesquisas com usuários da substância e estimou que até 57,1% podem desenvolver algum grau de dependência.

Segalla, da USP, participa do SOS (Study of Steroids), um estudo internacional com mais de 30 centros de pesquisa que pretende acompanhar 200 usuários de anabolizantes por um período de 7 a 10 anos.

O pesquisador afirma que o dado mais recente, de 2014, aponta que 3,3% da população mundial faz uso de esteroides anabolizantes. “Dados preliminares de uma nova meta-análise em andamento sugerem que na América Latina a prevalência pode chegar a cerca de 10%, indicando um aumento expressivo do consumo nos últimos anos, tendência que pode ter sido intensificada durante a pandemia”, diz.

Para Segalla, entender o fenômeno também exige olhar para os fatores sociais que cercam o uso dessas substâncias, como pressão estética, busca por padrões corporais difundidos nas redes sociais e competições esportivas.

O pesquisador afirma também que não são raros os depoimentos de usuários que atribuem mudanças positivas em suas vidas à testosterona. Ele conta que frequentemente recebe mensagens de pessoas que relatam forte depressão antes dos “ciclos” e que alegam melhora no bem-estar e na autoestima após o uso da substância.

“Quando a gente olha para esse fenômeno sem moralismo, fica mais difícil simplesmente generalizar e dizer que qualquer uso estético na academia é necessariamente problemático ou danoso”, avalia.

Proprietário de uma academia em Itabuna (BA), o nutricionista Hérick Ebony, 27, diz observar um crescimento de clientes que estão usando anabolizantes em ciclos.

“Nas academias isso é algo comum. Em alguns casos, dá para ver os sinais, o indivíduo aparece com muita acne, muitas espinhas, ou começa a ter uma queda de cabelo acentuada”, afirma.

Diante disso, afirma Ebony, o importante é informar e tentar reduzir danos. “Sempre procuro trazer toda conscientização possível para que ele repense [o uso do anabolizante].”

Para quem busca resultados de forma natural, Ebony diz que a base continua sendo o tripé treino consistente, alimentação adequada e descanso.

Autoria: FLSP

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