Duas “despublicações” vão contribuir para erodir mais um tanto a percepção pública da integridade na pesquisa científica. O retrocesso na confiança é geral, porém mais agudo em áreas de controvérsia ideologicamente hipertrofiada, como vacinas e meio ambiente.
Nem é o caso de enveredar pela polêmica fabricada sobre imunização nos EUA e os surtos de doenças evitáveis, como o de sarampo no Texas (803 casos, quase metade dos 1.828 naquele país neste ano). Basta ficar nos exemplos concretos de dois estudos ambientais, sobre clima e agrotóxicos.
A primeira retração soa mais escandalosa, por sair num periódico de grande prestígio, a Nature (cada artigo ali é citado, em média, por 50 outros trabalhos). E, também, porque reduz de modo drástico, de 62% para 23%, o cálculo de perdas no PIB mundial, até o ano 2100, por força de eventos climáticos extremos.
Donald Trump, empenhado em deitar mais combustíveis fósseis na fornalha global, deve ter amado a mancada de cientistas do Instituto de Pesquisa de Impactos do Clima de Potsdam (PIK, em alemão). Eles usaram dados defeituosos do Uzbequistão que, retirados da conta, abrem essa voçoroca de 39 pontos percentuais na reputação de Maximilian Kotz, Anders Levermann e Leonie Wenz.
Mérito deles que tenham reagido célere e honestamente a questionamentos sobre o artigo de abril de 2024 apresentados em agosto passado, 16 meses depois. Refizeram cálculos e pediram anulação do texto, por considerar insuficiente uma correção, e ela saiu publicada após três meses –até que rápido, dada a lerdeza típica nos processos de autocorreção da ciência, como se verá adiante.
O trabalho do PIK foi noticiado no mundo todo, inclusive na Folha. Teve mais de 300 mil acessos e recebeu 168 citações na literatura. Quanto dessa repercussão será revertida pela retração? Mais fácil é predizer que mercadores de dúvidas sobre aquecimento global acusem pesquisadores de viés ambientalista, já com um tico de verossimilhança, complicando a vida de pesquisadores e negociadores.
A expressão “mercadores de dúvidas” está no título de um livro crucial de 15 anos atrás, de Naomi Oreskes e Erik Conway, só agora lançado no Brasil. Em entrevista à Folha em setembro de 2024, ela alertou que o negacionismo segue causando estragos, agora como um zumbi digital.
Oreskes está por trás de uma nova façanha: a “despublicação” de outra pesquisa em seara ambiental, desta vez sobre o glifosato, agrotóxico dos mais usados no Brasil e considerado “provavelmente carcinogênico para humanos” uma década atrás. Só que, neste caso, a retração demorou 25 anos para acontecer.
A desautorizada publicação de Gary Williams, Robert Kroes e Ian Munro tinha saído em 2000 no periódico Regulatory Toxicology and Pharmacology. Em setembro, Oreskes e Alexander Kaurov revelaram que o artigo figura no topo de 0,1% entre os trabalhos mais citados sobre esse agrotóxico, embora desde 2017 se conheça que o texto tranquilizador fora escrito por ghost-writers da Monsanto.
O silêncio do agronegócio nacional, tão barulhento como negacionista da crise climática, será ensurdecedor. Nos dois casos, nós pagaremos o pato, e 23% do PIB mundial não é pouca titica anserina.
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