Ouvir música com frequência pode proteger o cérebro do envelhecimento. Um estudo australiano, publicado em outubro, acompanhou por dez anos mais de dez mil idosos saudáveis —com 70 anos ou mais— e concluiu que aqueles que escutavam música na maioria dos dias tinham 39% menos risco de desenvolver demência do que quem não mantinha esse hábito.
O Estudo Longitudinal Aspree de Pessoas Idosas acompanhou participantes para investigar quais fatores estão associados aos riscos de desenvolver várias doenças —e quanto as mudanças no estilo de vida poderiam fazer diferença.
“A música foi uma das áreas que nos interessavam“, diz Joanne Ryan, chefe da Unidade de Pesquisa em Neuropsiquiatria Biológica e Demência da Escola de Saúde Pública da Universidade Monash e pesquisadora sênior do novo estudo.
Os pesquisadores coletaram dados anualmente dos participantes e seus provedores médicos, e avaliações de função cognitiva foram conduzidas por uma equipe treinada. Eles descobriram que dos 10.893 participantes do estudo, os 7.030 que disseram ouvir música na maioria dos dias tiveram a maior queda no risco de demência em comparação com pessoas que não eram ouvintes frequentes de música. O estudo não especificou que tipo de música.
“Eles também tiveram um risco diminuído de experimentar um declínio cognitivo mais geral”, diz Ryan. “E também descobrimos que nesse período, eles se saíram melhor, consistentemente melhor nas tarefas de memória e também em um teste de função cognitiva global.”
Ryan ressalta que este é um estudo observacional, e a pesquisa não pode determinar se ouvir música causou a diminuição do risco de declínio cognitivo. Pode haver outros fatores associados a ouvir música que explicam a diferença. Mas ela achou os resultados impressionantes.
“Se considerarmos nossos resultados à luz de outras pesquisas que foram feitas”, diz Ryan, “acreditamos que pode haver uma ligação direta real.” Ryan aponta que existem pesquisas robustas que mostram que a música pode melhorar nosso humor e estimular várias áreas do nosso cérebro, o que é benéfico para a função cognitiva.
“Eu mesma comecei a ouvir mais música do que antes”, diz Ryan. “Eu encorajaria as pessoas a ouvirem música, porque se é algo que lhes dá prazer e também está estimulando seu cérebro, por que não.”
No Laboratório de Cognição Musical da Universidade de Princeton, pesquisadores conduziram estudos observando o que acontece com os cérebros das pessoas quando elas ouvem música. Eles descobriram que várias partes do cérebro são ativadas, incluindo áreas motoras, áreas sensoriais, as regiões que processam emoções e as envolvidas em imaginar ou sonhar acordado. Isso pode ser a chave para o que torna a música poderosa para melhorar a saúde cerebral.
“Uma das coisas que parece ser realmente importante é fazer com que todas essas áreas conversem entre si de maneiras significativas”, diz Elizabeth Margulis, diretora do Laboratório de Cognição Musical e pianista treinada que não esteve envolvida neste novo estudo. “Isso é algo que a música é excepcionalmente boa em fazer.”
Margulis destacou que a descoberta do estudo se aplica tanto a ouvir música quanto a tocá-la. Houve um benefício ligeiramente menor associado a tocar música regularmente, com uma redução de 35% no risco de demência, embora os pesquisadores suspeitem que isso ocorra porque é um grupo menor de pessoas do que aquelas que regularmente ouvem música.
Uma conclusão é que você não precisa aprender um instrumento para se beneficiar do envolvimento com a música, embora pesquisas tenham mostrado que ter aulas de música pode aumentar a matéria cinzenta no cérebro, mesmo para pessoas que não são particularmente habilidosas.
A música também tem uma qualidade transportadora, diz Margulis. Se você ouvir uma música que ouviu pela primeira vez durante um certo período da vida, pode se sentir transportado de volta para aquela época, especialmente com a música que ouviu na adolescência.
“Essa tende a ser a música que as pessoas mais lembram e têm mais memórias associadas”, diz Margulis. Ela acrescenta que a adolescência geralmente é o momento em que as pessoas estão se definindo, o que dá a essa música um significado adicional.
Isso pode ser visto até mesmo em pessoas que estão experimentando declínio cognitivo ou doenças como Alzheimer.
“Eles podem nem mesmo se reconhecer no espelho, não sabem onde estão ou como chegaram lá, mas você coloca uma música de quando eles tinham 14 anos e eles se reconectam com aquele eu que haviam perdido”, diz o neurocientista e músico Daniel Levitin, que também não esteve envolvido na nova pesquisa.
Anedoticamente, Margulis diz, o efeito parece permanecer por um tempo mesmo depois que eles ouvem a música.
“Eles estão um pouco mais presentes, um pouco mais capazes de interagir”, diz Margulis.
Música como remédio
Levitin escreveu um novo livro, “I Heard There Was A Secret Chord: Music As Medicine” (“Ouvi que havia um acorde secreto: música como remédio”, em português), reunindo pesquisas sobre como a música pode ser usada como terapia para coisas como depressão, dor e distúrbios neurológicos como Parkinson.
“Ouvir música é neuroprotetor”, diz Levitin, explicando que isso constrói resiliência e protege o cérebro criando novas vias neurais. “É um mito que você não desenvolve novos neurônios, e ao longo da vida, você está desenvolvendo novas vias.”
Levitin acrescenta que, embora ouvir música do passado possa trazer de volta memórias e proporcionar conforto, também há um benefício em ouvir música nova e se desafiar. Ele também incentiva as pessoas a tocarem música.
“Você pode começar a tocar um instrumento em qualquer idade, e não precisa ser Herbie Hancock”, diz Levitin. Ele lembra de ter dado um teclado à sua avó no seu aniversário de 80 anos, e observá-la praticar quase todos os dias até morrer aos 97 anos. Pra ele, tocar música traz uma alegria imersiva.
“Se eu tiver sorte, eu desapareço e a música me toca”, diz.
Mas ele enfatiza que apenas estar perto da música —seja ouvindo ou tocando— mostra benefícios. E é algo a que praticamente todos têm acesso.
“Essa é a coisa adorável”, diz Margulis sobre como a música é acessível a todos.