Conhecimento pode desmitificar transexualidade – 21/10/2025 – Equilíbrio

Quando há uma década a pernambucana Maria Clara Araújo dos Passos escolheu cursar pedagogia e defender um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) baseado no movimento trans no Brasil, não imaginava que o tema renderia um livro, “Pedagogias das Travestilidades”, publicado em 2022, quando foram celebrados os 30 anos de fundação da Astral (Associação de Travestis e Liberados), a primeira entidade constituída pelo Movimento de Travestis e Mulheres Transexuais no país.

A obra registra a luta do movimento para que o estado perceba essa comunidade como digna e garanta seus direitos sociais e políticos. Além disso, a autora documenta o que esse coletivo tem realizado desde 1979 e enfatiza seu papel como um agente de cidadania fora da educação formal. “Pedagogias”, como a autora gosta de se referir ao livro, acaba de ser traduzido para o inglês e para o alemão.

“O meu interesse ao escrevê-lo era enfatizar que o nosso processo enquanto população de travestis e transexuais, o nosso reconhecimento enquanto cidadãs, não ocorreu necessariamente na escola, mas no movimento social, que foi responsável por esse processo de cidadanização”, explica.

Para Maria Clara, a tradução se seu livro para o inglês e para o alemão é uma forma de conectar ativismos trans globais e combater o conservadorismo. “Pessoas de outros países podem aprender com o movimento de travestis brasileiro e perceber a necessidade de nos conectar também. A língua não deve ser barreira para que esse diálogo aconteça.”

A autora se reconheceu travesti aos 16 anos, ainda no ensino médio, mas teve que lidar com a transfobia institucional, especialmente porque o nome social ainda não era um direito.

“A escola foi muito violenta comigo, se recusava a entender o reconhecimento da minha identidade de gênero como condição para o meu direito à educação, mas concluí o ensino médio a despeito da própria educação.”

Apesar do que passou no ambiente escolar, Maria Clara optou por ser pedagoga. Foi a primeira pessoa da família a ser aprovada na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), mas novamente precisou defender o uso do nome social por meio de um manifesto que, à época (2015), viralizou em uma rede social.

“Se ontem a professora tirou a boneca da minha mão, hoje o reitor diz não ter demanda para meu nome social. Eu existo! Nós existimos! […] Onde está a dignidade? Não somos iguais.[…] Eu, travesti, além de ter batalhado por minha entrada, a partir de agora irei batalhar por minha permanência.”

Em 2021, concluiu a graduação na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) por ter vindo trabalhar no mandato da primeira deputada estadual transgênero eleita em São Paulo, Erica Malunguinho (PSOL), de 2019 a 2022. Neste ano, a pesquisadora concluiu o mestrado em sociologia da educação pela USP (Universidade de São Paulo). Atualmente ela atua como coordenadora de parcerias com movimentos no Black Feminist Fund.

Maria Clara diz que escrever sobre educação foi uma maneira de curar as feridas que o processo educacional lhe deixou. “Sou uma travesti negra nordestina, não consigo dividir as minhas identidades, sou formada por todas essas camadas. Me identifico como travesti, pois se tornou a lente pela qual eu olho para o mundo.”

Para ela, a tradução do livro tem peso de vitória coletiva. “É um projeto coletivo que se interessa por mudar o imaginário em torno de pessoas trans no Brasil, levando em consideração a marginalização histórica que foi imposta à população de travestis, e pontuar que as pessoas trans são capazes de contribuir muito com a produção de conhecimento científico.”

Autoria: FLSP

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