Metanol: O que seria de mim se ainda estivesse na ativa? – 06/10

Fico pensando o que seria de mim se eu estivesse na ativa nesse momento em que as bebidas foram adulteradas com metanol. Num vídeo gravado recentemente, o dr. Drauzio Varella aconselha que não se beba por um tempo: a vida vale muito para ser desperdiçada em troca de um copo.

Temo pelos meus amigos e familiares, liguei para minhas amigas, falei com meus sobrinhos.

Mas, na ativa, tenho certeza de que não daria ouvidos àquela advertência e talvez integrasse as estatísticas dos casos já notificados. Quando o corpo pede por bebida, não tem nada que freie. Não me importaria com essa contaminação gravíssima, criminosa. Teria a falsa convicção de que comigo não aconteceria nada.

Hoje, distante daquele abismo, consigo enxergar a dimensão do perigo que eu corria. Na época, nada me parecia mais importante do que aliviar a dor, a ansiedade, o vazio. A bebida era um anestésico disfarçado de companhia, um conforto que me distanciava ainda mais de mim mesma. Era um ciclo: quanto mais eu bebia, mais me afastava da vida, das pessoas, dos sonhos. E, no entanto, eu não percebia. Não queria perceber.

O mais discrepante é que eu, que sempre fui hipocondríaca, bebi inúmeras vezes sentada em calçadas, sem a mínima higiene. Eu não me importava. Certa vez eu e uma amiga estávamos saindo de um bar e a chave do carro dela caiu no bueiro. Não tive dúvidas: me agachei e mergulhei a mão lá no fundo.

Pois é, eu vivia desafiando a vida, em perigo constante, então quem sou eu para alertar as pessoas? Bem, essa semana eu comemoro oito anos de recuperação, e acho que ao longo de todo esse período eu conquistei uma sanidade que mudou completamente minha visão de mundo.

E ouso dizer que hoje posso, sim, não me calar. Lembro de ter feito muita coisa que poderia ter me matado ou me deixado terrivelmente doente, mas agora a história é outra. No primeiro ano de recuperação eu não conseguia parar quieta, sentia uma ansiedade muito grande, mal conseguia falar com as pessoas. Atualmente leio jornal, assisto ao noticiário e tento aconselhar as pessoas. Sobre o abuso de álcool, sobre o metanol.

Pensando egoisticamente, sinto alívio por estar sóbria. Alívio porque sei que estou fora desse risco imediato. E isso é reconfortante. Meu irmão mandou uma piadinha no grupo da família que era um balde com gelo e umas bebidas achocolatadas, com a legenda: sextou. Respondi na hora: bem-vindo ao meu mundo.

Claro que era apenas um meme que não os impediria de beber. Se eu pudesse voltar no tempo, pediria a todos que frequentassem o Alanon, programa do AA para familiares e amigos de alcoólatras. Talvez alterassem alguns comportamentos e não beberiam tanto.

Posso dizer que hoje escolho a vida todos os dias. Não é fácil, nunca foi. Mas é possível. E é isso que quero que meus amigos e familiares entendam: dá para dar um tempo do álcool.


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Autoria: FLSP

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