Salões e clínicas de estética especializadas em cabelos crespos e cacheados e pele negra oferecem ambiente acolhedor ao apostarem em um atendimento para além da beleza. A prioridade é a escuta e a autoestima da mulher negra.
O propósito do salão JP6 Studio, de João Paulo Soares de Freitas, mais conhecido como JP, é cuidar das pessoas por meio do cabelo.
Há 23 anos na profissão, ele diz que ouvir a cliente é fundamental para saber o que ela busca para além de um cabelo bonito. “Há mulheres que procuram o salão porque não conseguem se olhar no espelho”, afirma.
Por isso, o ambiente do salão também é pensado para melhor acolher essas mulheres. A música, que dá para ouvir já na saída do elevador, faz parte da experiência. É sempre uma trilha sonora de um artista negro.
No dia que a Folha esteve no salão, o novo álbum da Luedji Luna embalava o ambiente.
A recepção é feita por uma das funcionárias, também negras, que JP emprega no salão. Ele diz que tem um critério de contratação na hora de escolher a equipe, mas há a preocupação de selecionar pessoas que têm a vivência de quem tem cabelo crespo e cacheado.
“O profissional tem que saber como se coloca a mão no cabelo crespo, porque precisa pedir licença para pôr a mão”, afirma.
No Loes Saúde e Beleza, Juninho Loes, também se preocupa em empregar profissionais negros. “Até porque é esse o nosso público alvo. Um dos objetivos do Loes é que as clientes se sintam pertencentes quando entram e possam falar que aqui foi pensado para elas”, afirma.
Ele diz ainda que mulheres negras devem se unir em comunidade para resgatar sua relação com o afeto.
O salão também se preocupa com a música ambiente. “Ela tem a importância afetiva de levar a gente para dentro de casa, para o quintal de casa”, afirma. Juninho diz ainda que quando inaugurou pensou até no sofá que colocaria no salão. Ele escolheu parecido com o da sala de sua mãe.
Uma outra característica importante do salão é ele ser todo fechado. Quem está de fora não consegue ver o que acontece ali dentro. O estabelecimento quase passa despercebido para quem passa pela rua residencial onde está localizado.
E isso também foi feito de caso pensado. A ideia é que a cliente entre e se sinta em um ambiente seguro para soltar os cabelos, contar sua história e chorar também, se necessário.
“Nós ouvimos muitas histórias aqui, às vezes que nem diz sobre o cabelo. Porque nunca foi só cabelo”, afirma. Ele diz ainda ser o papel do salão ajudar as clientes a ressignificar o que está por trás dos fios.
Carla Nunes, que tem uma estética que leva o seu nome, diz que também ouve muitas histórias na clínica.
Um dia uma cliente levou a mãe e a irmã, ambas negras, para fazer uma massagem. Foi oferecido à matriarca um chá, mas ela ficou desconfortável. Porque disse que não sabia ser servida.
A esteticista diz que gosta de contar essa história, porque a clínica é além da estética. O propósito é acolher.
“Agora que estou em um processo de recuperação da minha saúde, a força que eu tenho empregado para me recuperar, e, também para estar aqui dando essa entrevista, é porque para mim a clínica é uma missão muito forte [de cuidar das pessoas]”, afirma Nunes.
A Estética Avançada Carla Nunes é especializada em pele negra e oferece tratamentos faciais e depilação a laser. Após a pandemia, os atendimentos aumentaram tanto que foi preciso se mudar para um espaço maior. Por isso, ela se instalou em uma casa na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo.
Quando começou na área da estética, se especializar em pele negra não foi algo planejado, aconteceu organicamente com a chegada de clientes em sua clínica.
Nunes então foi estudar sobre pele negra. Para a sua surpresa, na época, haviam poucos estudos a respeito, mas nenhum sobre tratamentos. “Com as próprias clientes, fui desenvolvendo os tratamentos personalizados e minha cartela de clientes quadruplicou”, afirma.
Ela resolveu se aprofundar mais ainda nos estudos e foi atrás da história da beleza negra no Brasil. Com as leituras, diz que entendeu questões raciais em relação à estética, que vão além da fisiologia da pele negra. “Eu pude compreender o que faz muitos dos nossos não buscarem serviços de estética. Eles não se sentem representados.”
A biomédica Pamela Holosi, dona da Clínica Holosi Estética, também precisou ser autodidata para atender as clientes negras. “Eu ia nos lugares fazer limpeza de pele, que é uma coisa básica, e eu saía de lá toda manchada e machucada”, diz.
Como não havia um curso específico para o público negro, ela começou a ler livros que tinham alguma referência a pele negra e começou a testar os tratamentos nela mesma. “Assim fui construindo protocolos para pele negra, porque não existe no mercado.”
Ela afirma que para cuidar da pele negra tem que ter cuidado, carinho e dedicação. “A gente tem uma pele maravilhosa que produz bastante colágeno. A melanina não é uma vilã. É um sinal que está acontecendo algum processo inflamatório e que é preciso ficar de olho.”
Holosi afirma que conhece a fundo cada uma das suas clientes, porque conversa muito com elas antes de definir o tratamento adequado. “Eu falo que autoestima hoje é saúde não é só estética”, diz. “Porque se você estiver com uma estética boa, as coisas fluem.”
Um exemplo disso é o caso de uma cliente, que estava triste porque não conseguia emprego. Holosi não pensou duas vezes, ofereceu um tratamento estético e permitiu que a cliente pagasse quando tivesse dinheiro.
Semanas depois, a biomédica recebeu uma mensagem da cliente dizendo que conseguiu fechar um projeto e que a pagaria na semana seguinte. “Ela falou que estava dentro de casa chorando. Quando ela fez o procedimento, saiu de casa e se mostrou, o trabalho apareceu.”