Conselheiros federais de saúde dos Estados Unidos votaram nesta quinta-feira (18) contra a vacinação de crianças menores de 4 anos com a vacina tetraviral (MMRV, na sigla em inglês), que protege contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela (catapora).
Nesta sexta (19) eles devem votar a respeito da manutenção, para recém-nascidos, da vacina contra hepatite B, uma doença altamente infecciosa que atinge o fígado.
Cerca de metade dos membros do painel foram nomeados no início desta semana pelo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr. Como sinal de quão apressadamente o grupo foi montado, muitos dos conselheiros manifestaram confusão e precisaram de explicações sobre o protocolo habitual dessas reuniões, por exemplo.
Muitos também pareciam inseguros sobre o propósito do programa Vacinas para Crianças, que fornece imunizantes gratuitos para aproximadamente metade das crianças americanas. Aprovar quais vacinas o programa deve cobrir é uma função essencial do comitê.
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A decisão de revogar a recomendação da tetraviral pode não ter grandes consequências, uma vez que a orientação sobre vacinas administradas separadamente para proteger contra essas doenças permanece inalterada.
Em uma reviravolta bizarra, os membros também decidiram (por 8 a 1) que o programa Vacinas para Crianças vai continuar a oferecer a tetraviral para crianças menores de 4 anos. Não ficou claro se todos os conselheiros entenderam o que estavam votando. Três membros se abstiveram, um deles citando explicitamente sua confusão como justificativa.
Ainda assim, a votação provavelmente resultou na primeira de muitas mudanças nas recomendações oficiais sobre vacinação.
Uma votação a respeito do imunizante contra a Covid também está agendada para esta sexta-feira.
Além disso, o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização estabeleceu dois novos grupos de trabalho, de acordo com seu presidente, Martin Kulldorff: um para analisar o uso de vacinas na gravidez, outro para revisar os calendários de vacinação infantil e adolescente.
A possibilidade de que a nova administração possa fazer mudanças significativas no calendário de vacinação infantil alarmou muitos especialistas em saúde pública, que disseram temer que restringir o uso de certas vacinas resultaria em um ressurgimento de doenças há muito tempo vencidas.
“Se as pessoas não puderem acessar vacinas, veremos o retorno de doenças que antes causavam sérios problemas de saúde para crianças”, disse Sean T. O’Leary, presidente do comitê de doenças infecciosas da Academia Americana de Pediatria.
“Essas doenças agora são quase totalmente evitáveis e, como pediatra, é de partir o coração ver uma criança e uma família sofrerem dessa maneira”, acrescentou.
A vacina tetraviral é uma alternativa à administração de duas injeções separadas: a tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, e a vacina que imuniza crianças contra varicela.
Na reunião de quinta-feira, cientistas dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) apresentaram dados mostrando que a vacina combinada aumenta ligeiramente o risco de convulsões causadas por febre, mas sem efeitos duradouros. Tais convulsões também podem ocorrer com qualquer doença infantil, incluindo infecções de ouvido.
Especialistas de organizações médicas se opuseram veementemente à decisão do comitê.
Na quarta-feira (17), Susan Monarez, que foi afastada do CDC após menos de um mês como diretora, disse aos legisladores que Kennedy a havia instruído a aprovar todas as recomendações do painel “independentemente das evidências científicas”.
No mesmo dia, o senador Bill Cassidy, republicano da Louisiana, presidente do comitê de saúde do Senado, disse que os americanos não deveriam confiar nas medidas do painel para revisar as recomendações de vacinas infantis.
A maioria do comitê é formada por integrantes de primeira viagem. Em junho, Kennedy demitiu todos os 17 membros e nomeou sete novos integrantes, que geralmente concordavam com sua postura contrária às vacinas. Os outros cinco membros foram nomeados no início desta semana, o que representa uma mudança de rota, visto que os integrantes do painel normalmente são avaliados por meses e até anos antes de serem convidados ao grupo.
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