Cientistas analisaram 15 anos de dados de saúde de quase 25 mil adultos em Taiwan e descobriram que dois anos de exposição a ondas de calor poderiam acelerar o chamado envelhecimento biológico de uma pessoa em 8 a 12 dias extras.
Pode não parecer muito, mas esse número se acumula ao longo do tempo, disse Cui Guo, professora assistente da Universidade de Hong Kong que liderou o estudo, publicado na segunda-feira na revista Nature Climate Change.
“Este pequeno número realmente importa”, disse ela. “Este foi um estudo de uma exposição de dois anos, mas sabemos que as ondas de calor na verdade vêm ocorrendo há décadas.”
A pesquisa surge num momento em que as mudanças climáticas induzidas pelo homem estão tornando as ondas de calor mais intensas e duradouras. A Costa Oeste dos Estados Unidos está sofrendo com temperaturas sufocantes, enquanto o Irã experimenta um calor abrasador. Temperaturas recordes castigaram a Europa, o Japão e a Coreia este mês. A França experimentou recentemente sua segunda onda de calor do verão, desencadeando um debate nacional sobre ar-condicionado.
Em 2024, o ano mais quente já registrado, as mudanças climáticas foram responsáveis por 41 dias extras de calor extremo em todo o mundo, de acordo com uma análise da World Weather Attribution.
Grupos específicos são mais vulneráveis ao envelhecimento acelerado devido ao calor, descobriram os pesquisadores. Se você é uma pessoa mais velha que viveu muitas ondas de calor, pode envelhecer mais rápido do que uma pessoa mais jovem que teve a mesma exposição, disse Guo. Outros fatores, como viver sem ar-condicionado ou trabalhar ao ar livre, também podem piorar significativamente sua taxa de envelhecimento.
Guo ressalta que isso não é o mesmo que perder dias literais de sua vida; reflete uma mudança mensurável nos marcadores de envelhecimento biológico, não no calendário.
O estudo definiu ondas de calor tanto como um período de pelo menos dois dias consecutivos de temperaturas anormalmente altas, quanto como qualquer momento em que as autoridades emitiram alertas de calor. Também levou em conta a soma total da exposição ao calor de uma pessoa.
Os pesquisadores quantificaram os efeitos do calor comparando a idade biológica das pessoas com sua idade cronológica. A idade biológica é uma medida de quão saudáveis são os pulmões, o fígado e as células de uma pessoa em comparação com uma pessoa perfeitamente saudável, disse Guo.
O estudo usou 12 dessas medidas de saúde, conhecidas como biomarcadores, para calcular como o calor afetou a taxa de envelhecimento dos participantes do estudo. Os resultados levaram em conta fatores individuais que podem afetar os marcadores de envelhecimento, como exercícios, tabagismo e doenças preexistentes.
“A maioria dos países está enfrentando uma população que envelhece”, disse Guo. Como o envelhecimento biológico está intimamente ligado à morte e a muitas doenças, acelerá-lo pode ser um indicador de problemas de saúde graves.
A população de Taiwan, junto com a Itália, Espanha e Hong Kong, está entre as mais envelhecidas do mundo. Nos Estados Unidos, espera-se que pouco menos de um quarto da população tenha 65 anos ou mais até 2050.
A pesquisa publicada na segunda-feira se baseia em outros estudos que descobriram efeitos prejudiciais semelhantes da exposição ao calor na saúde. Uma análise recente de 3.600 idosos americanos descobriu que viver a 90 graus Fahrenheit (cerca de 32,2°C) por pelo menos 140 dias por ano poderia causar até 14 meses de envelhecimento adicional.
Diferente do estudo em Taiwan, a pesquisa nos Estados Unidos não levou em conta alguns fatores individuais que podem afetar a saúde, como o tabagismo. Kristie Ebi, professora da Universidade de Washington que não esteve envolvida em nenhum dos estudos, disse que tais fatores têm um grande impacto na saúde, e levá-los em consideração é fundamental para analisar corretamente os efeitos do calor em uma população.
Outras mudanças de longo prazo também podem fazer diferença, disse Ebi. Ao longo de um período tão longo quanto 15 anos, uma população pode se aclimatar lentamente a temperaturas mais quentes, inclusive encontrando novas formas de lidar com o calor. Os autores do estudo de Taiwan sugeriram que um aumento moderado no número de residências com aparelhos de ar-condicionado correlacionou-se com a diminuição do envelhecimento devido ao calor ao longo do tempo.
“Os resultados podem ter implicações para intervenções de saúde pública“, disse Ebi, observando que existem maneiras pelas quais os governos podem intervir para proteger as pessoas em um mundo que está esquentando.
Por exemplo, residentes do Oregon podem usar financiamento do Medicaid para comprar um ar-condicionado se tiverem condições de saúde que podem piorar no tempo quente, disse ela. Mas os aparelhos de ar-condicionado não devem ser considerados uma solução ideal porque a energia que usam pode tornar o ar exterior mais quente e contribuir para as mudanças climáticas, disse Ebi.
O calor extremo também pode apresentar outros riscos menos diretos à saúde. Descobriu-se que as altas temperaturas pioram a qualidade do ar e preparam o cenário para outros desastres, como incêndios florestais, secas e tempestades.
“As pessoas simplesmente têm pouca consciência de que o calor mata ou que, neste caso, tem consequências adversas para a saúde”, disse Ebi. “Isso tem sido um desafio persistente.”
Este artigo apareceu originalmente no The New York Times.